quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Passageira

Ela vai de trem, volta de avião, a estação é a sua casa, a estrada o seu chão. Ama a vida que tem, ama tanto que odeia, sem pesar vai-se embora, mais uma vez, a passageira.
Guarda o mundo dentro de seus olhinhos escuros,um pouco grande do mundo que pôde recolher, Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal, todo um pouco de Brasil carrega, se vale e faz sentir saudades.
A pequenina mulher com uma mala nas mãos e uma mochila nas costas,o peso de errar sem paradeiro e nem prazo pré estabelecido, ela aprendeu a não ter medo do desconhecido, e conheceu a falta que sente e a falta que faz sentir.
A jaqueta marrom de couro carrega no braço, caso vá esfriar, veste a fina regata bordada e a calça jeans folgada, não sabe como o tempo estará.
Junta todos os seus detalhes, seus pesares, suas dores, reúne todos seus olhares, suas cismas e amores. E vai. Vai como na primeira vez, vai desconfiando internamente de que não será a ultima.
Ela deixa pegadas à sua maneira, discreta demais pra cravar marcas,forte demais pra passar sem deixar seus sinais.
Fala coisas sobre as gentes diferentes do que a gente é, ninguém é igual, ela se permite ser interlocutora da diferença.
Conta casos de viajantes solitários e histórias pra dormir que aconteceram de verdade, cita nomes, apesar de esquecer um ou outro, afinal, foram tantos. Mas nunca esquece de fazer com que se viva a sua lembrança narrada em viva voz.
O tempo que compete com ela já alcançou singelamente as suas formas, deixou mais brancos os seus cabelos, traçou linhas leves sobre sua face. Mas ela não demonstra o seu tão grande cansaço, ela ainda é linda quando sorri, é perfeita quando é o que nasceu pra ser.
Por isso ela tem que partir, tem que aceitar, vai ter que se encantar com outros cantos, se apaixonar por outro lugar.
Deixou seu coração com outro alguém pra não perder o senso de direção nem a coragem, com as passagem marcada de ida ela se prepara para viajar, sem datas marcadas ou promessas precisas,mas ela vai voltar.
Vai voltar porque é esse o seu destino, vai voltar por não ter porque lá ficar, e além disso apesar de não ter mais coração, ela ainda sabe o que amar.

certo por réguas tortas

Todo mundo tem uma história pra contar, um quase desastre que virou piada, uma vitória de supetão que virou lembrança.
Pois veja que realmente esses "erros’’ e trapalhadas são fundamentais para a descoberta de coisas boas. Se Cabral não tivesse errado a rota, tinha perdido a oportunidade de conhecer esse paraíso que é o Brasil, por exemplo.
Uma amizade que prezo muito começou assim. Estava na papelaria ajudando uma amiga a comprar os materiais escolares para o começo das aulas, e estavam lá também dois garotos que nós nunca tínhamos visto na vida, lembro que até comentamos isso uma com a outra.
E, na hora de pagar, eu peguei por engano a régua de um dos moços. O mais velho olhou pra mim e falou: _ ei, acho que isso aí é meu. _ Fiquei com tanta vergonha na hora que nem pedi desculpas, devolvi a régua e sai correndo da loja, morrendo de rir e esperando minha amiga do lado de fora.
Pra minha surpresa, logo descobri que um dos garotos não apenas estudava na mesma escola, como na mesma sala que eu, e logo atrás de mim, e o outro, eu ainda iria ver muitas vezes.
Mas hoje a gente acha graça, foi o primeiro assunto que tivemos e que deu oportunidade pras longas e divertidas conversas que vieram depois. Por isso é que costumo dizer, que ás vezes é realmente necessário dar aquele "empurrãozinho" básico no destino, pra que as coisas boas realmente possam acontecer.
Não estou dizendo que o certo seja jogar tudo pro alto ou sair se arriscando por aí sem mais nem menos, longe de mim. Mas testar a sorte de vez em quando, não faz mal a ninguém. Se todo mundo pensasse nas minúsculas chances de ganhar na loteria, ninguém jogaria, e consequentemente, ninguém ganharia.
As coisas não caem do céu, não sem um esforçozinho vindo da nossa parte. Conheço a história de uma mulher que queria arranjar marido, já tinha feito de tudo, e nunca dava certo, um dia, revoltada da vida, jogou o Santo Antonio pela janela, que foi cair justamente na cabeça do seu futuro marido.
Nem sempre vai dar certo, é claro, e acho que é demais querer que todos concordem que a decepção vale a tentativa. Mas pra mim ao menos , vale mesmo. Antes tentar e não conseguir do que ter que conviver com a dúvida por nunca ter tentado. Na minha opinião Deus escreve certo, por "réguas" tortas .

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ARGUMENTOS E CONTRA-ARGUMENTOS

Uma das características da natureza comportamental do homem é a reação contra qualquer coisa que se oponha à ordem vigente. O  medo da mudança traz no seu bojo, o medo da perda. Por isso, quase sempre a mudança vem acompanhada de uma sensação de subversão da ordem. No próprio modelo dito dialético é assim, contra a tese, vem a antítese, e o resultado é a síntese que se constitui numa nova tese e assim ad infinitum. Toda vez que se estabelece um grupo e alguém se levanta para propor algo que subverterá a ordem vigente, logo surgem as ideias contrárias. Isto é normal, e salutar, pois, conforme Nelson Rodrigues, "toda unanimidade é burra." Claro, não é da natureza humana a concordância e a discordância absoluta. Caso houvesse, tanto uma, como a outra, algo estaria errado, pois estaria indo de encontro à normalidade divergente do homem. Pois bem, a despeito do reconhecimento desta idiossincrasia, avanços e retrocessos são o resultante desta realidade. A construção da história humana é a evidência deses fatos. 
Recentemente foi colocado diante do povo do estado do Pará uma consulta à opinião pública por meio do mecanismo do plebiscito. Naquele 11 de dezembro de 2011, o povo paraense, aqui usando este patrônimo por força de que se trata de uma unidade da federação, optou pela não criação de dois novos estados: o Carajás e o Tapajós. Está tudo dentro da legalidade prevista na Constituição Federal, e no ordenamento jurídico atinente a esta questão, em nível federal e estadual. Nada fora dos parâmetros legais, não é esta a discussão. Entretanto, tal resultado provocou o despertamento dos cidadãos destas regiões emancipacionistas. Evita-se aqui o termo separatistas, porque este teria um teor um tanto dúbio. O fato é que se de um lado os paraenses da região Nordeste do estado, especialmente da Grande Belém, optaram pela não-emancipação, por outro lado, os habitantes do Carajás e do Tapajós cuja votação pela emancipação foi expressiva, despertaram para a sua dura realidade de abandono socioeconômico.
É deste contexto do despertar de uma verdade há muito adormecida, que surgem argumentos de ambos os lados. Por exemplo, alguns que optaram pela não emancipação, dizem que seria uma mutilação do estado que é uma unidade federada desde a formação histórica do Brasil; outros dizem que seria um aumento vertiginoso de gastos para o erário público na construção da estrutura e infra-estrutura político administrativa; outros ainda dizem que aumentaria o número de políticos, e, consequentemente aumentariam os gastos para mantê-los. Entre outros argumentos, estes são destacáveis como de maior popularidade e aceitação.
Todavia, contra-argumenta-se, valendo-se de fatos reais na história recente do país. Após o fim do regime militar surgiu uma nova Constituição Federal em 1988, a qual trazia em seu corolário a previsão do instituto do plebiscito para tratar de assuntos de grande relevância para a República Federativa do Brasil. Dentre os dispositivos previa-se a possibilidade de integração, divisão, e anexação de territórios federados. Os primeiros a serem divididos foram o Mato Grosso e o Tocantins. Naquela época os argumentos eram basicamente os mesmos de hoje. A emancipação foi aprovada e o tempo se encarregou de mostrar os equívocos. Hoje tais estados, MS, MT e TO são prósperos, obviamente de acordo com o modelo de desenvolvimento predominante. Também os antigos Territórios Federais de RO, RR, e AP foram transformados em estados da federação. Os mesmos argumentos foram usados, mas comparando-se as duas realidades, estão bem melhores hoje. Ainda o território Federal de Fernando de Noronha foi anexado ao estado de Pernambuco por questões de segurança nacional. Hoje é uma área de reserva ambiental especial em pleno oceano Atlântico.
Conclui-se que as divisões de algumas unidades federadas que ainda estão pendentes não fugirão à esta regra. A questão é: há interesses difusos e confusos nesta questão específica do Carajás e do Tapajós. Talvez por suas localizações e seus potenciais econômicos. 
Veremos quando chegar a vez de Minas Gerais.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O DESCORTINAMENTO DE UMA VERDADE

Há um adágio popular que diz: "os números não mentem, mas são feitos por mentirosos." Tomando-se as devidas proporções no tocante ao plebiscito do último dia 11 de dezembro de 2011, tal anexim aproxima-se muito da verdade. Tem-se hoje o estado do Pará como uma das 27 unidades político-administrativas do Brasil. É uma unidade da federação geograficamente maior que dezenas de países do globo. Entretanto, é brutal a desigualdade socioeconômica. O mais grave, neste caso, é a enorme diferença de tratamento relativamente ao bem-estar social. São dezenas de municípios desprovidos do mínimo necessário à sobrevivência: saúde, educação, transportes, energia, telecomunicações e moradia. 
O resultado do plebiscito descortinou uma verdade oculta à maioria dos brasileiros: uma população vivendo à margem da vida, porém em meio a enormes riquezas naturais. É como ser pobre em um país rico, por isso, as desigualdades se tornam muito gritantes. Ser rico em uma sociedade rica, ou pobre em uma sociedade pobre não evidencia absolutamente nada, pois o anormal parece normal a todos. Todavia, viver de modo desprotegido em meio a enormes riquezas é, mais do que desigual, é desumano. Esta é pois a realidade das regiões do Carajás e do Tapajós. Do ponto de vista de recursos naturais e econômicos são mais ricas que todo o restante do Pará. Porém, do ponto de vista dos benefícios destas riquezas aos habitantes, é mais pobre do que muitas outras regiões do Brasil. 
Os tecnocratas do IPEA deram a opinião deles antes do plebiscito, afirmando que estes estados seriam inviáveis economicamente. Pois bem, qual estado ou território brasileiro era viável quando foram criados? Este discurso serve a, no mínimo, dois propósitos: manter o status quo dos que estão no poder, ou manter o fluxo de riquezas das regiões do Carajás e do Tapajós na direção de outros pontos do estado, e do país.
No mesmo viés leem-se opiniões postadas na mídia virtual, afirmando que tal divisão só serviria para dar lugar a um maior número de políticos e maiores gastos públicos para manter o aparelho administrativo dos possíveis novos estados. Pois bem, é verdade, porém pergunta-se que diferença faz eleger políticos subordinados aos interesses do governo estadual em Belém e elegê-los para responder diretamente à população dessas regiões? Esta última opção é preferível aos olhos dos que vivem no Carajás e no Tapajós.
Finalmente, os resultados do plebiscito serviram muito, porque mostram, que, o total de 95% do "SIM" no Carajás e no Tapajós juntos representa o descortinamento de um desejo, e mais do que isto, de uma vontade.  Os resultados parciais foram muito sugestivos também, pois segundo os dados do TRE/PA foram os seguintes:
Região do Carajás: 
SIM = 33,4%
NÃO = 66,60
ABSTENÇÕES = 25,71%
NULOS = 1,05%
BRANCOS = 0,41%
Região do Tapajós:
SIM = 33,92%
NÃO = 66,08%
ABSTENÇÕES = 25,71%
NULOS = 0,49%
BRANCOS = 1%
A leitura destes dados se torna mais clara quando se sabe que o Nordeste do Pará é mais populoso e, interessado em manter a atual situação, votou pelo "NÃO". Entretanto, um terço dos eleitores nas respectivas regiões separatistas não é um valor a ser desprezado politicamente. Poderão ser perfeitamente usados nas urnas em 2012 e 2014.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

ENTRE O SIM E O NÃO, FICOU SIM, UMA DÚVIDA

O plebiscito para a divisão do atual estado do Pará, e a criação de dois novos estados, o Carajás e o Tapajós, ocorreu no dia 11 de dezembro de 2011. Fora as questões de ânimos acirrados de ambos os lados, o que é comum nesses casos, tudo transcorreu na mais perfeita ordem da civilidade. Entretanto, este foi um processo que já nasceu fadado a uma única resposta, o "NÃO", pois todo o estado do Pará foi submetido à escolha. Ora, partindo do fato que a região mais habitada fica no noroeste do estado, onde não querem a divisão, obviamente prevaleceria o não. É o que comumente se designa por "favas contadas." Não é necessário um profundo exercício de matemática para saber previamente de um resultado desses. 
Um plebiscito é, como a própria palavra induz, uma resposta do povo, das massas, da plebe. Provém do latim 'plebscitu', que, na Roma antiga era tratado e considerado como o voto ou decreto passado em comício, obrigatório apenas para os plebeus, em sua origem. Na atualidade alguns Estados utilizam-se do plebiscito antes de editar, positivar e validar a norma que recai num ato legislativo, ou administrativo. São os cidadãos, no uso das suas prerrogativas que votam pelo sim, ou pelo não, nas questões atinentes aos seus interesses. 
No caso do Pará, registra-se com base em coleta de dados e informações concretas resultantes da votação, que embora o resultado foi proclamado como "NÃO", na verdade, deu o "SIM". Obviamente que estamos diante de um aparente paradoxo, pois como "não" é "sim"? Bem, a informação real é que somando as populações votantes das regiões do Carajás e do Tapajós, o "SIM" somou cerca de 90%. Logo, o que sobrou foram os míseros 10% restantes. Neste caso fica a enorme dúvida: deu "SIM", ou deu "NÃO"? A vontade dos cidadãos do Carajás e do Tapajós é que sejam autônomos os seus respectivos territórios. Mas, a vontade burocraticamente engendrada do restante é que a situação permaneça como está. Isto lhes rende vultosas somas de arrecadação, como também a dilapidação do patrimônio genético, energético, mineral destas regiões. 
O povo sofrido, abandonado e pouco assistido pelo aparelho do estado do Pará está profundamente decepcionado e na dúvida: como o "SIM" é "NÃO"? Pois bem, pelo sim, ou pelo não, resta-lhes não depor as armas. Há outras vias para conseguir a autonomia político-administrativa, e promover o tão desejado e esperado progresso que permanece nas mãos de uma meia dúzia de paraenses que tratam a coisa pública como feudos de propriedade hereditária e particular.
O processo não está encerrado, e muito menos, sacramentado. Os cidadãos podem encaminhar projeto de lei popular e propor um novo plebiscito. Ainda podem caçar os contrários por meio das urnas nas próximas eleições. Escolher representantes que sejam favoráveis à autonomia e que lutem por ela em todas as instâncias.
O fato é que o resultado abriu uma enorme ferida que já existia, porém estava encoberta por curativos e bandagens artificialmente colocadas. Agora a ferida precisa de uma cura completa e satisfatória para a saúde do Carajás e do Tapajós.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O PAÍS DAS ANALEPSES

Uma das tendências da natureza humana é lançar mão do passado para justificar, ou mesmo explicar, o presente. Até aí é uma atitude que encontra lastro no processo histórico. Pelo menos deveria ser assim, pois tal atitude evitaria muitos transtornos. À guisa de exemplo, se Hitler tivesse levando em consideração o erro de outros invasores, não teria invadido a Rússia no inverno. Em certos casos, o passado serve de referencial até mesmo para delinear o futuro, procurando evitar os mesmos erros cometidos. 
Nestes sentidos, e considerando as inclinações naturais do homem, especialmente do brasileiro, pode-se afirmar que o Brasil é um país com fortes raízes nas práticas político-econômicas do passado, seja o remoto, seja o recente. Até aí, nada de anormal, porquanto em quase todas as civilizações as coisas ocorrem desta forma. Há sempre os "flashbacks", como também os "cut backs", ou os "switchbacks". As referências são sempre remontadas às experiências do passado, envolvendo planos econômicos, governos e seus feitos bons, ou ruins.
A analepse é um termo comum na literatura, sendo uma figura de sintaxe que designa uma espécie de retrocesso por meio de uma interrupção de sequência cronológica. Faz-se uma interpolação de fatos e acontecimentos ocorridos no passado para fortalecer as posições, ou posturas presentes. Tal é utilizado como forma de assegurar posições futuras mais seguras, pois pautadas nas referências pretéritas. É, portanto, uma anacronia, a saber, uma alteração do plano temporal de algum evento, ou numa série de eventos. 
Em cinema, o "flashback" é um recurso importante para recorrer aos fatos passados e explicar os fatos atuais, ou futuros. Funcionam como pontes para aguçar o raciocínio do telespectador, levando-o a se tornar um agente investigador ao longo da exibição.
No Brasil, transportando a ideia para a política e a economia, temos múltiplos exemplos da analepses. Muitas pessoas com mais de 60 ou 70 anos, se consultadas, afirmam sem dúvidas que o melhor governo foi o de Getúlio Vargas. Outros, na faixa dos 40 ou 50 anos, afirmam que foi o governo de Juscelino Kubitschek. Ainda, outros, preferem valorizar o período do regime militar, por razões de segurança e manutenção do Brasil na ordem mundial vigente, a saber, a Ordem Bipolar. 
Na contramão destas posições encontramos alguns rancorosos de esquerda que preferem remontar aos anos 50, supervalorizando as comunidades eclesiais de base, expressões reais da esquerda católica. Outros preferem fazer laudatícios às células comunistas clandestinas durante o que eles denominam de "ditadura" militar como sendo atos heroicos. Ainda há os que guardam o movimento das "Diretas Já" como digno de mérito patriótico, sendo que os militares mesmos fizeram o processo de abertura e de anistia. 
A conclusão é que vivemos em um país das analepses, mas que na prática, não se toma o passado como referência para corrigir erros presentes, e projetar um futuro retilíneo. Tais teses e discursos são apenas úteis para os diversos e diferentes palanques que se exaltam em retórica, mas carecem de praxis. Todos estão jogando uma espécie de jogo para chegar ao poder, entorpecendo as mentes dos incautos e alienados. Como bem diz o adágio popular, "o que passou, passou", ou mesmo outro anexim: "deixe o passado, no passado." 
Na atualidade foi aprovada a criação da famigerada "Comissão da Verdade". Tal comissão tem por meta investigar abusos e crimes do período do regime militar. Ficou a cargo do presidente da República nomear os seus membros que trabalharão nas consultas dos documentos secretos, agora liberados. Entretanto, tal comissão já nasceu unilateral e com base numa visão míope e portadora da "síndrome do coitadinho". Os escolhidos e indicados se debruçarão apenas sobre investigação para culpar militares e agentes do Estado que cometeram excessos, abusos, crimes. Ora, naquele tempo, não apenas um lado cometeu tais atrocidades, mas ambos. Os erroneamente chamados revolucionários e guerrilheiros também mataram, inclusive companheiros de guerrilha, roubaram, sequestraram, prenderam, prevaricaram, mentiram, dissimularam muitas coisas para por a culpa nos agentes do Estado. Então, se se quer fazer, de fato, justiça e trazer à lume a verdade, deveriam investigar os documentos em seu inteiro teor.
Vamos fazer das analepses, também prolepses!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O PAÍS DOS OXIMOROS

O Brasil pode ser nomeado, substantivado, e adjetivado de diversas maneiras, e por diversos recursos de linguagem. Usam e abusam de ufanismos para definir e redefinir o Brasil. Este viés é antigo, por isso, retratado em poética decantada pelas escolas, e cantada por vozes dos mais diferentes matizes e estilos. Costuma-se nomeá-lo de "país continente", "democracia racial", "nação emergente", entre outros. Agora, inclusive, querem nos enfiar goela abaixo uma série de solecismos como aceitáveis, em contraposição à norma culta. À guisa de exemplo, temos o recente caso do "nois pega o peixe" do material didático adotado pelo MEC nas escolas públicas.
Em 1900, o conde Afonso Celso escreveu o livro, "Porque Me Ufano do Meu País". A partir desta obra desenvolveu-se uma forte tendência à exacerbação do patriotismo, pelo menos, em palavras, e muito menos em atos. De lá para cá as coisas não se alteraram muito. Mudaram-se os personagens, mas o hábito dos oximoros permaneceram.
Define-se como oximoro uma figura de linguagem clássica que confronta duas ideias opostas, afim de formar uma terceira concludente. Tal processo, ou recurso força o leitor a buscar uma saída metafórica para entender o sentido do que se declara sobre o sujeito. Assim, na expressão: "um instante eterno", o leitor é conduzido a uma breve confusão entre o que é instantâneo, e o que é eterno. São ideias opostas, mas que, pelo sentido desejado produz uma terceira via. Neste caso, fica subentendido que a intensidade do instante é tão forte, que faz perder a noção de tempo. Tal recurso é frequentemente utilizado pelos místicos e pelos românticos. 
É uma alternativa retórica que depende exclusivamente da interpretação pessoal de quem ouve, ou lê. Por isso, bastante útil aos círculos políticos, econômicos, e acadêmicos. Por esta razão alguém, já afirmava em música: "eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada." A ideia 'deles' é esta mesma!
Desta forma alguns comunicadores são exímios oximoronistas, pois eles dizem o que querem, não dizendo-o diretamente, e deixa o ônus do resultado na conta de quem interpretar. Não respondem pelo dito, pois não vale o dito pelo dito, mas o dito pelo não-dito. Destarte, eles dizem por exemplo, "fulano de tal fez uma declaração tácita". É uma declaração verbal, ou apenas subentendida? O tácito serve como prova verbal, e confessional? Quando apertado pelos opositores, tais afirmações acabam numa explicação mais ou menos assim: "bem, ele não quis dizer isso, ou aquilo." Ora, não quis, mas disse! É tão forte este comportamento que os comunicadores da 'mass media' afirmam sobre certas acusações, investigações, e apurações: "o suposto esquema de desvio de verbas." Não querem assumir o ônus de terem julgado e condenado alguém, cujo delito está mais do que comprovado.
O personagem do seriado humorístico mexicano, Chaves, sempre diz: "foi sem querer, querendo." É precisamente isto que é um oximoro. Neste sentido temos no Brasil experts nesse recurso. É uma tal de "lúcida loucura", ou mesmo um tal de "silêncio eloquente", ou ainda a famosa "inocente culpa".
Assim seguimos 'adelante', pois nunca na história deste país se viu tantos oximoronautas, que estão mais para desinformatas em benefício próprio.
Ad infinitum et ad nauseam.... 

domingo, 11 de dezembro de 2011

O PAÍS DOS CIRCUNLÓQUIOS

A banda Legião Urbana cantou e decantou em verso e prosa a música: "Que País É Esse". O vocalista diz na primeira estrofe: 
Nas favelas, no Senado
Sujeira para todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da Nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
A voz do inquiridor persiste no tempo e no espaço: que país é esse? O protesto verbalizado na voz de Renato Russo continua ressoando retumbante 'ao som do mar e à luz do céu profundo'. O Brasil precisa de respostas e não apenas de propostas. O Brasil precisa de soluções e não de simulações em teses academicistas que são meras ideologias. O Brasil tem fome e sede de verdade. O Brasil tem urgência de ética e seriedade. Não bastam discursos vazios de realidade, pois palavras são palavras, nada mais que palavras, permita-se o clichê. Não se servem ideologias no almoço e no jantar.
O circunlóquio é uma figura de linguagem na qual o orador foge ao foco central da discussão para assentar praça na periferia dos fatos. Valendo-se de expressões exageradamente retóricas, o falante anda em círculos pelo abuso de múltiplas palavras. Deixa de dizer o que de fato importa, encobrindo, assim, a verdade que a ele não importa. Torna complexo, o que é essencialmente simples.
É recorrente em propagandas institucionais, especialmente na atual governaça, o uso e o abuso dos circunlóquios. Há paralelamente às falas, um forte apelo à camada ótica por meio de imagens bonitas sobre realidades feias. Mostram um Brasil que de fato, só existe para poucos. O telespectador é obrigado a inquirir outra vez: que país é esse? O país que mostram nas propagandas eleitorais, por exemplo, difere substancialmente do país real e conhecido pelos que transitam por suas plagas.
Os circunlóquios começam na educação, pois desde os livros didáticos adotados até as estruturas físicas das escolas, não encontram eco na urgência e necessidade do processo. Em muitas escolas mais se deseduca do que educa, visto que os meios são antagônicos aos fins. A universalização da educação é algo desejado, porém sem ser acompanhada dos instrumentos indispensáveis, não surte os efeitos que se esperam. Ainda que todas as crianças, adolescentes e jovens estejam dentro de uma sala de aula, não há garantias de que estejam recebendo instrução adequada. Os índices internos e externos mostram a realidade, quando comparados a outras nações. Tal processo capenga tem produzido milhões de analfabetos funcionais. A melhor evidência desta triste realidade é a escassez de mão de obra qualificada. Chegou-se ao ponto de as próprias empresas providenciarem a qualificação de pessoas. As universidades sucateadas, mal conseguem expor aulas teóricas.
Os circunlóquios se estendem até a esfera da economia. Mostram índices comparativos por trimestres do ano anterior em relação ao ano em curso. Nada mais falso do que isto! São processos diferentes, em momentos diferentes. É um recurso para evidenciar alguns milésimos de crescimento, quando muito. Todavia, o que importa ao povo é se há casa para morar, gás no botijão, comida para servir, água tratada, esgoto, segurança, e emprego com salário fixo. Expurgam determinados itens da cesta de consumo, visando suavizar a realidade inflacionária que se acelera mês a mês. Assim, quando dizem: "estamos trabalhando para conter a inflação" deveriam de fato dizer: "a inflação está alta e não temos controle dela". Usar de gerundismos para explicar o que é óbvio e ululante, não satisfaz a urgência do cidadão que trabalha e paga elevada carga tributária sem privilégios mínimos.
Então, chega de circunlóquios! O Brasil não pode continuar nos solilóquios!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Com que direito?

Todo mundo gosta de futebol. Bom, nem todo mundo. Mas garanto que eu, todos os donos de bar, emissoras de TV, fabricantes de cerveja, de fogos de artifício e pelo menos mais 50% da população gostam.

Se você vive no Brasil sabe que o futebol faz parte da nossa rotina,das tradições e inclusive da nossa economia. E como todo negócio,elegemos nossos ídolos.

Crianças de dez anos sabem quem é o Pelé, que por acaso atingiu o auge de sua carreira a mais de trinta anos. E claro que tivemos muitos outros queridinhos, como o Robinho, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká (as leitoras sabem do que eu to falando) e agora, a sensação é o jovem e talentoso Neymar. Sorte do Santos e ao mesmo tempo medo e sonho de consumo de qualquer time adversário.

É natural que as pessoas queiram se espelhar nas figuras públicas que admiram. E se permitem cortes de cabelo desde o (graças a Deus) superado penteado de careca com uma filete de franja do Ronaldo Fenômeno, até o mais recente moicano ditado pelo Neymar.

Até super compreensível. Cortes de cabelo falam algo sobre a personalidade da pessoa. Seja ele moderno, diferente,comum ou erro de palpite ou do cabeleireiro (atual definição da minha franja por exemplo). Pelo cabelo dá pra saber até quem passou no vestibular.

Mas aí outro dia me vi perguntando de onde surgiu a ideia do moicano, não tive que ir muito longe pra lembrar que tinha algo haver com uma tribo indígena dos Estados Unidos. É, Moicanos eram uma etnia de nativos que foi completamente dizimada pelos colonizadores europeus quando chegaram na América do Norte.

Aí sem querer me lembrei de outra coisa, uma que tem muito mais haver com minha realidade e por mais que eu corra da ideia, é minha responsabilidade também. Não se engane, é tão minha quanto sua. Estou falando da questão indígena do meu,ou melhor nosso país.

Se você já ouviu falar de Belo Monte sabe onde eu quero chegar, se não, permita-me dizer: é um projeto de central hidrelétrica em processo de autorização para ser construída no Pará, no Rio Xingu.

Pode parecer normal, afinal a energia de que você dispõe ao ligar o computador, assistir TV e acender as luzes, vem da energia disponibilizada por usinas hidrelétricas. Vulga ‘’energia limpa’’. Mas esse projeto não apenas desmatará milhares de quilômetros quadrados de floresta amazônica, emitirá quantidades críticas de gases estufa como também coloca em risco cerca de vinte etnias indígenas que vivem no Xingu.

É claro que enquanto você lê essa crônica muitos movimentos contra essa aprovação e outros a favor de outros direitos de nossos índios estão acontecendo.Mas pelo menos a mim,parece vergonhosa essa atitude de deixar tudo sempre pros outros e não fazer nada.

Ninguém faz um corte de cabelo indígena como protesto e nem sai por aí com a cara pintada, talvez a moda não julgue a causa como importante, talvez ainda pareça mais atraente parecer um jogador de futebol. Talvez ninguém no fundo se julgue no dever de fazer alguma coisa. Nós somos contra a globalização da Amazônia, claro, e indiferentes a um projeto devastador desses. Será que realmente temos algum direito sobre o que quer que seja? O mundo pode ter mudado um pouco, mas uma coisa não muda, direito só se tem se se conquista.

Sissa Santos

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Palavras e Acepções V


De tudo o que já foi exposto sobre significantes e significados abstrai-se que as palavras podem conceder e retirar ideias e pessoas dos seus lugares-comuns. Há, entretanto, a acrescentar que existe uma refinada diferença entre semântica e gramática. Esta se ocupa das estruturas ou padrões formais de como as palavras são expressas. Aquela, todavia, se ocupa das significações, podendo, por isso, ter diferentes semânticas no contexto daquilo que se quer comunicar. Em língua nacional vernácular, o significado leva em conta a sinonímia, a antonímia, e a homonímia, tanto quanto, a conotação e a denotação, as quais foram superficialmente comentadas em outro artigo. A Semiótica, ou como se falava antes, Semiologia, é a ciência da linguagem conforme as suas raízes. É a ciência geral dos signos ou semiose que estuda todos os fenômenos culturais como determinantes de sistemas de significação. A 'semeion', a saber, a Semiótica é mais abrangente que a Linguística, pois vai além do sistema sígnico. Neste conjunto entram as artes visuais, a fotografia, a música, o cinema, o vestuário, a culinária, os gestos, a religião, a ciência. Tudo o que é perceptível como significado aos sentidos humanos é o campo da Semiologia. Por todas estas razões, a Semiótica trabalha com formas e conteúdos nos sistemas ocidentais. Outros sistemas de comunicação sígnicos são mais complexos, podendo assumir uma dimensão triádica, ou seja, trabalha em três planos: a) a representação na natureza e na cultura; b) o conceito; c) e a ideia.
É neste sentido que se pode afirmar que há similitudes entre processos de comunicação humanos e não-humanos, com base nas significações do que os sentidos percebem em certos seres, ou fenômenos da natureza. Para Charles Sanders Peirce há três categorias que se impõem sobre a experiência humana: a mediação, a qualidade, e a reação. Para ele, tudo o que pode ser apreendido pelo pensamento se insere nestas categorias. Também é de Peirce as três concepções de sígnos: a) ícone; b) índice; c) e símbolo.
Após uma exposição superficial e sem muito rigor cinetífico, pode-se transpor da fundamentação teórica para fatos similares. Existe no sul-sudoeste da África um pequenino mamífero da família dos Herpestidae chamado 'Suricata suricatta'. São animais exclusivamente diurnos, moram em tocas escavadas no chão, possuem garras fortes, e dentes muito afiados. Uma das suas maiores características distintivas é que têm a capacidade de se colocar posturalmente sobre as duas patas traseiras, elevando-se a uma altura além da sua altura normal. Vivem em colônias de, no máximo, 40 indivíduos e possuem um complexo sistema de túneis subterrâneos onde permanecem durante a noite.
As Suricatas, ou Suricates possuem uma rara inteligência organizacional, porém apenas corporativa; desenvolveram um refinado sistema de comunicação entre si. Elas se revezam na vigilância contra os ataques de inumeráveis predadores. Protegem vertiginosamente as crias pequenas, substituindo-se umas às outras até a exaustão do sono. Parece ter um sistema de códigos sonoros que permitem identificar e transmitir sinais de perigo para cada tipo de predador. Ao emitirem tais sons, que, quando ouvidos pelo bando, provocam reações diferenciadas, com maior, ou menor urgência de defesa e proteção. As Suricatas possuem, inclusive, um eficiente sistema de ensino às suas crias, tanto para caçar sua alimentação, como para se defender dos predadores.
Há partidos políticos no Brasil que são verdadeiros antros de suricatas. Eles agem nos subterrâneos escuros, fuçando a vida de todos. Possuem um eficiente sistema de blindagem dos seus companheiros de bandos. Desenvolveram um conjunto de signos e símbolos pelos quais se comunicam e realizam ilusionismo aos desatentos, tornando-os vítimas de uma espécie de contra-informação. Os seus chavões e clichês são sempre os mesmos, lançando mão das palavras mágicas com as quais hipnotizam a fantasiosa intelectualidade subproduto das cátedras acadêmicas teóricas baseadas em Karl Marx, Vladimir Lênin, Leon Trotsky, Mao Tse Tung, Antonio Gramsci, Max Weber, Theodore Adorno, Rosa de Luxemburgo, Herbert Marcuse, Louis Althusser, Emir Sader, Slavoj Zizek, Jürgen Habermas, Max Horkheimer, entre outros tantos. Estes políticos suricatas, produzem e reproduzem modelos inspirados em um aprendizado adquirido por mimetismo dos mais velhos esquerdofrênicos que não lograram sucesso. Tais suricatas agem de uma maneira durante o dia, e de outra durante a escuridão da noite. Sustentam complexos ralos que dão em labirintos de esgotos por onde transitam e escapam segundo as suas necessidades e ambições.
Enfim, no Brasil há suricatas do planalto, ou no planalto!
Nunca na história deste país se viu tanta verossimilhança entre Suricatas da planície e do planalto...