sábado, 16 de outubro de 2010

Palavras e Acepções IV

Após o processo de letramento pressupõe-se que cada indivíduo busque a ampliação dos horizontes, seja pela observação seletiva e controlada da realidade, seja pela assimilação dos padrões culturais e informacionais disponibilizados com relativa liberdade no tempo presente. A informação, e a desinformação estão ambas colocadas diante do sujeito-cidadão, letrado, ou iletrado. Os códigos que permitem o seu acesso são de diferentes eixos linguísticos, conduzindo, portanto, a percepção e a recepção por decodificação das mensagens. Desta forma, ninguém, por mais alienado que seja, pode reclamar para si o direito de não saber, não ver e não conhecer os fatos. Tem-se hoje que a informação e a sua consequente comunicação é o quarto poder, ou quarta coluna. A experiência vivencial, indica que pessoas de poucas letras, e até mesmo, indoutas são capazes das mais profundas reflexões sobre a vida, os fenômenos, sobre si mesmas e os outros. A forma e o conteúdo daquilo que o sujeito-comunicante expõe tem muito da sua 'mores', a saber, da sua conduta e dos códigos desta conduta apreendidos e desenvolvidos ao longo da existência, em certo tempo e lugar.
É importante ressaltar que moral provém de 'mores' do latim, e que, por sua vez, resulta de uma inglória tentativa dos romanos em traduzir a palavra grega 'êthica'. Para os gregos ética trazia em sua significação dois sentidos: a) 'ethos' que se refere àquilo que flui do interior do homem, sugerindo, portanto uma ação e uma interação; b) 'éthica' que remete a questão para os hábitos, costumes, usos e regras que se materializam nos valores consagrados por um grupo social. A deturpação do termo 'éthica' fez desaparecer no tempo a dimensão do ato humano individual. Desta forma a ética contém a moral, sendo esta maior que aquela. Por isso, a ética é determinante da lei, visto que os atos individuais são refletidos nos costumes, hábitos e práticas de um grupo social. Quando a ética atinge a dimensão da lei, passa a reger todos os indivíduos, mas também cada um de per si.
Sendo a moral um conjunto de regras aceitas e praticadas no convívio social, desprende disto que os laços entre moral e direito são muito estreitos por força do fato de que ambos recaem nas leis cuja função é apaziguar a sociedade. Segundo Claude du Pasquier, em sua "Teoria dos Círculos Secantes", moral e direito coexistem sem se separarem, porque a necessidade de regras jurídicas estabelecem comportamentos morais; Já Jeremy Benthan, em sua "Teoria dos Círculos Concêntricos", o ordenamento jurídico encontra-se absolutamente contido na ordem moral; Também, segundo Georg Jellinek, em sua "Teoria do Mínimo Ético" afirma que o direito possui apenas um certo mínimo da moral, para garantir a sobrevivência da sociedade.
Enquanto o direito possui uma dimensão heterônoma, bilateral e coerciva, a moral é autônoma, unilateral e incoerciva. Por isto, considerando apenas a moral, pode-se dela obter três formas de comportamentos entre os humanos: a) Atitude moral, aquela que resulta em um indivíduo que aceita e pratica as regras postas como valores em uma sociedade, em certo momento histórico, e em um determinado espaço; b) Atitude imoral, aquela que resulta de um indivíduo que anda em sentido oposto a todas as regras aceitas e praticadas por um grupo, em um lugar, em em certo tempo; c) Atitude amoral, aquela que resulta em um indivíduo que não possui nenhuma reação de valor moral, ou imoral. A questão moral para esta categoria de indivíduo é desconhecida, e estranha, portanto, não leva em consideração os preceitos morais. Por isto, Oscar Wilde disse: "a arte não é moral nem imoral, mas amoral!" Na verdade ele quis dizer que a arte, em si mesma, não se preocupa em ser moral ou imoral, portanto, dependerá de quem a vê. Desta maneira fica estabelecido que a moralidade, ou a imoralidade está centrada no indivíduo que a vê, e não, necessariamente na peça em si.
Na sociedade moderna, sobretudo em determinados seguimentos, há seres absolutamente amorais, ou seja, não consideram os preceitos morais, e, muito menos, os atos imorais como tais. Eles são movidos ao sabor do que lhes agrada. Para eles, os fins justificam os meios, contanto que se locupletem. São capazes de, num simples ato de abuso de poder, infringir todo o ordenamento jurídico de uma nação, sem se importar com os sacrifícios dos que tombaram para que tais valores fossem consagrados. Eles se caracterizam por afirmar uma atitude aparentemente moral hoje, e negá-la amanhã com a maior ausência de escrúpulos. Muitos dos políticos brasileiros são assim. O que condenavam ontem, praticam hoje! Assim, o futuro é incerto...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Palavras e Acepções III

Entre vocábulos e termos, conotações e denotações a palavra se faz dita e dizente por ofício da comunicação. O discurso pleno de conteúdo, ou mesmo vazio deste, dá a diferença entre esta, e aquela palavra e suas possíveis acepções. Ressente-se, no entanto, de palavras que sejam, de fato, as mensageiras do pensamento, e que estes sejam fieis, tanto ao que faz uso delas, como também, aos que as ouvem. O processo comunicativo entre humanos é muito simples: consiste em um emissor, um código, e um receptor. Aquele é o que fala, este se refere a linguagem utilizada, e este outro é o que ouve. Cada um cumpre a sua função, e, entre fonemas e grafemas, termos e vocábulos, se dá o milagre da ideia comunicada.
Há um fenômeno recorrente na figura do político brasileiro, especialmente, o das novas gerações. Ele é por excelência, um ser mimético, a saber, um ser que possui imenso talento para imitar. Sendo o mimetismo, por extensão de sentido, um atributo do ser que se ajusta a uma nova situação, portanto, se passa por diferentes adaptações a fim de permanecer. O mímico político, ser anacrônico, transita de situação em situação, de plataforma em plataforma, de interesse em interesse, em conformidade com o ganho que possa disso obter. Neste sentido, o político brasileiro é por excelência, e por natureza um ser mimético. Muda de lado e de ideologia sem o menor senso de escrúpulo. Em tese, as meretrizes são mais seletivas que eles, posto que as tais não necessitam enganar a ninguém. São assumidas, porque não têm nada a perder, e muito pouco a ganhar.
Há três tipos básicos de mimetismo na natureza de acordo com a função do ser mímico: a) mimetismo defensivo, o qual, pretende dissuadir os predadores, podendo um mímico inofensivo se mimetizar de uma espécie perigosa; b) o mimetismo agressivo, tendo por objetivo a presa do mímico, ou seja, tomam forma de um ser inofensivo para apanhar de surpresa uma espécie da qual se alimenta; c) o mimetismo reprodutivo, a saber, aqueles que tomam as feições de uma outra espécie da qual possa obter alguma vantagem copular. Estes processos estão inserido nos termos da camada ótica. Há, todavia, outros mimetismos ligados à camada auricular, quando um ser mímico emite sons semelhantes ao de outro ser perigoso a fim de espantar possíveis predadores. É o caso do cuco, que imita o falcão visando afugentar aves que predam os seus ovos.
Assim, pode-se entender por mímico o ser que adota características semelhantes ao de outros seres. O mimentismo não deve ser confundido com a camuflagem, porque, enquanto o aquele busca assemelhar-se a outros seres, nesta, os seres buscam assemelhar-se ao meio em que se acham por algum tempo, dificultando a sua detecção por outros seres predadores.
No cenário político nacional se vê constantemente muitos seres mímicos, alguns seres predadores, e outros, ainda, seres camuflados. Os mímicos são aqueles que, na iminência de perder a confiança das suas presas úteis, mudam de postura corporal, penteado, indumentária, religião, cardápio, opinião et coetera. Eles passam décadas jurando destruir determinadas coisas, tais como: o capitalismo, os Estados Unidos da América, o FMI, a propriedade privada. Insuflam os faltos de instrução e consciência política, atribuindo às suas mazelas sempre aos outros. Entretanto, quando chegam ao poder e experimentam os seus prazeres, vislumbrando o quanto podem amealhar riquezas com o exercício da governança, mudam. Mimetizam-se rapidamente, porém mantendo o discurso que os levou ao poder. Discursam contra supostas elites que, na verdade, os apoiam. Na mente mímica deles, é sempre interessante manter o conflito de classes, porque isto justifica, tanto a sua perpetuação no poder, como a permanente promessa de uma sociedade mais justa. Eles passam de mímicos agressivos a mímicos defensivos, e, por vezes, a mímicos reprodutivos, podendo em muitos aspectos e circunstâncias, se camuflarem para sobreviver aos longos períodos de latência política.
Vê-se nestes tempos de militância, grandes mímicos pululando de galho em galho, visando encontrar uma maneira de permanecer no poder. Em dado momento concordam e propõem um PLC, o qual pretende oficializar o aborto, as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, etc. Quando os índices de aprovação da opinião pública, traduzidos em intenções de votos se mostram decadentes, eles se mimetizam de santos, religiosos, a favor da vida, etc. Negam as antigas amizades coloridas e estúpidas que ainda sonham levar a América Latina a uma espécie de socialismo terceiromundista, o qual o mundo já testou e detestou.
"Nunca na história deste país" se viu tantos mímicos, mimetizados, e camuflados...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Palavras e Acepções II

Deve-se sempre ter muitos cuidados com as palavras, e mais ainda com as suas possíveis acepções, porque elas podem dizer muitas e diversificadas coisas. E, como alguém disse certa vez, "devemos pensar sobre todas as coisas, mas nunca dizer tudo o que pensamos." Sabe-se que palavras são significantes que podem ter um, ou diversos significados, sendo estes mutáveis em função do contexto em que são empregados. Os significados podem ser conotativos ou denotativos. Há significados que só se definem com o apoio de outras palavras complementares. O sentido conotativo é aquele que dá à palavra um valor figurado. Já o sentido denontativo é aquele que concede à palavra um valor literal. Então, dependendo do que se queira, pode-se fazer referência literal ao que é figurado, e referência figurada ao que é literal.
Em princípio todo discurso é vazio, precisamente porque o ato de se comunicar é por concessão, a saber, o sujeito-falante se concede expressar, enquanto, o outro, o sujeito-ouvinte, se concede entendê-lo. Em sentido mais amplo, os falantes e os ouvintes vivem uma sugestão de comunicação, quando, na verdade, se comunicam muito pouco. Neste ponto pode-se dizer que há muita palavração, e reduzida comunicação útil. Apalavrados todos os humanos são, porém, comunicadores pouquíssimos conseguem sê-lo. A "raça" humana é, em certo sentido, nivelada pelas palavras, visto que, tanto o doutos, como o indoutos, falam em igualdade de direito concessório. Pode haver, em termos gerais, uma ditadura da palavra, mas também há uma democracia dos falares e subfalres. Resta, então, saber quem fala, o que fala, quando fala, por que fala, onde fala, a quem fala. Porque, quem é o dono da língua, o que há por trás da norma coloquial, ou por trás da norma culta? Quem nestes casos discute formas, conteúdos, ou ideias?
Vê-se, hodiernamente, em pleno quadrante da história informacional, o palco onde atores ensaiam e apresentam seus discursos, plenos, ou vazios, conforme suas conveniências. É recorrente no teatro da política o discurso vazio. É deste contexto que surgem as palavras mágicas referidas no artigo anterior. É o discurso do "politicamente correto": inclusividade, sustentabilidade, políticas afirmativas, renda, empregabilidade, segurança disso, segurança daquilo, ética, democracia, cidadania, dignidade, etc. Quando pronunciadas, todos se põem em prontidão, porque disto dependerá um furo de reportagem, a aceitação em um determinado círculo fechado, um cargo de confiança, uma negociata às escusas, e por aí vai. Há um forte apelo à aceitação no ser humano, e, para tanto, muitos se passam por "politicamente corretos", quando, de fato, não o são. O discurso vazio pode versar sobre qualquer assunto, e pode ser proferido por qualquer pessoa. O aborrecido não é o discurso ser vazio, mas o discursante. Todas as discussões do "politicamente correto", nada mais são que o que é do dever do Estado e do cidadão. O problema reside em quem fala e nas razões da sua fala.
A sensibilidade à esperteza humana se desenvolve muito cedo, permitindo a percepção do como ser aceito, e do como se dar bem sem muito esforço braçal. Muitos enchergam o caminho dourado por onde enveredam, adotando postura e discurso, que, em sua significação, é vazio, posto que estão mesmo interessadas em chegar ao sucesso e à fama. Seria de bom tom que os palavrantes lessem Jacques Lacan em "As Formações do Inconsciente", para descobrir como os significantes formam e amoldam o inconsciente. Correr-se-ia menor risco de ser ludibriado por picaretas que são tidos como grandes virtuoses e gênios da política.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Palavras e Acepções I

Alguém afirmou alhures que "as palavras são as mensageiras do pensamento", como confirmava o sábio e prudente Rev. Eber Vasconcelos. Entretanto, a percepção que se tem, de fato, é que as palavras nos dias que transcorrem se prestam mais ao propósito de omitir, ou mesmo encobrir o real pensamento daquele que fala. O uso das palavras está condicionado a acepção que se pretende dar a elas, nos respectivos textos, nos devidos contextos, e, por vezes, a grotescos pretextos.
Na língua pátria vernacular a palavra 'palavra' provém do latim 'parabola', que, por sua vez, provém do grego 'parabolé', sendo, portanto, definida como o conjunto de letras ou sons associados a uma ideia. A palavra se constitui em uma unidade da linguagem humana. Quando se refere à palavra com um conjunto de letras, diz-se que é um grafema; quando se refere à palavra como um conjunto de sons, diz-se que é um fonema. Em ambos os aspectos, o referencial é a representação material da palavra, e, a ela, dá-se o nome de vocábulo. Quando se refere à palavra como índice da ideia a que ela representa, diz-se que é o aspecto interno, ou a representação imaterial da palavra, neste caso, ela é o termo. Portanto deve-se explicar sempre muito bem o termo, e não explicar bem o vocábulo. Igualmente, o correto é pronunciar bem o vocábulo, e não pronunciar bem o termo.
Acepção é um substantivo feminino que representa o sentido em que uma palavra, ou uma expressão pode tomar. É, portanto, a interpretação, a hermenêutica, ou mesmo, a sua significação. Na fraseologia comum a acepção indica uma tendência, ou uma ideologia do que fala em relação ao que ouve, a partir do que, ou de quem se fala. Assim, quando se diz da acepção de pessoas, fala-se, na verdade, de uma determinada predileção por alguém, escolha, tendência, e inclinação em favor de alguém, ou alguma coisa. Isto pode estar condicionado à classe social, a privilégios, e aos títulos desta pessoa. Ainda pode estar condicionado ao grau de importância do objeto de que se fala por seus atributos, benefícios e vantagens. A acepção induz a um sentido literal, ou figurado, dependendo do contexto.
Destarte, e, com longa margem de segurança pode-se afirmar que 'nunca na história deste país' se utilizou tanto, por tantas vezes, e em tantos pleitos da palavra para enganar, mentir, ludibriar, aviltar, insultar e engambelar tantas pessoas ao mesmo tempo, por todo o tempo. Descobriu-se o uso abusivo dos vocábulos, disfarçados grosseramente em termos nas acepções convenientes para se dizer o que quer, e ainda assim, se colocar na condição de vítima inocente o que fala, e na condição de inocente útil, o que ouve. Virou hábito dizer grosserias como se metáfora fosse, e dizer amabilidades como se acepção literal fosse.
Há aquelas palavras mágicas que encantam os ouvintes, como quem encanta serpentes. Basta a pronúncia de meia dúzia destas mágicas palavras, contextualizadas, ou não, que a mais célebre das platéias se cala. Todos, doutos, ou indoutos, silenciam-se por temer a exposição a uma oposição ostensiva e sofrer retaliações em seus campos de lutas. Ninguém quer se expor, mesmo quando o enunciado é estúpido e infiel aos princípios. Trocou-se a fidelidade, pela praxis do politicamente correto, pela qual todos os protocolos são quebrados. Com isto, alimentam uma súcia de mimetizados e uma horda de mimados esquerdofrênicos que não suportam ouvir o que não querem, mas adoram dizer o que querem aos 'miquinhos amestrados' da falsa intelectualidade, da imprensa venável e dos 'limitados domesticados' pela política do 'panis et circensis'.
E viva o circo com suas focas amestradas!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Da Falsa Meritocracia à Oclocracia Desvairada


Michael Young tratou do conceito de Meritocracia em uma obra de ficção em 1958, intitulada "Rise of the Meritocracy". Na referida obra, enuncia-se a concepção de uma sociedade na qual o poder seria exercido por indivíduos com base no seus QI,s e nos seus esforços. Tal concepção, no entanto, era carregada de significação pejorativa, visto que o poder se originaria da posição pessoal com base em um merecimento indiscriminado, ou difuso. Os ideólogos desta concepção, contrariamente, defendiam a tese que a ascensão dos indivíduos deveria ser com base no mérito, que, para eles, se apoiava na habilidade, na inteligência e no esforço pessoal.
A Oclocracia, por sua vez, não é rigorosamente uma forma de governo, mas uma situação crítica vivida pelas instituições constitutivas do poder, em face à irracionalidade do povo, multidão, ou das massas populares. Provém do grego 'okhlos = multidão' + 'kratos = poder'. Indica e preconiza uma forma de jugo outorgado pelo poder originário na vontade popular dirigido ao poder constituído e à lei vigente em um certo momento, em um determinado lugar. Este modelo, ou mecanismo faz valer os intentos e desejos das massas acima de quaisquer determinações do direito positivado. Recai por vias de consequências, e, de fatos, em um tipo de abuso que se instaura e se instala em um governo tipificado como democrático, quando as massas se tornam controladoras da coisa pública. Segundo a concepção clássica de Aristóteles, a Oclocracia se assemelha à Tirania e à Oligarquia, que são formas degeneradas e distorcidas das formas puras de governo. Há na Oclocracia, um forte apelo ao poder salvacionista e messiânico de quem está no comando.
A Meritocracia, do latim 'mereo', ou seja, merecer, obter com mérito, e 'kratos', que é poder. Em sua concepção original e pura trata-se de um governo gerido por meio da ascensão aos postos do poder público por merecimento com base na educação formal e na competência. Desta forma a Meritocracia verdadeira está associada também às posições, ou colocações conseguidas por mérito pessoal. Há diversas argumentações em favor da Meritocracia, no sentido em que ela seria mais justa, uma vez que as distinções não seriam com base em origem étnica, cor da pele, sexo, ou mesmo na escala de valores socioeconômicos. Tais distinções seriam, portanto, um critério mais próximo da equanimidade, sem determinar o fim das classes sociais e das distinções naturais dos indivíduos.
Na Meritocracia autêntica, governos e instituições meritocráticas enfatizam habilidades, educação formal e competência, em lugar de diferenças existentes, tais como classe social, etnia, ou sexo. Em uma democracia representativa, onde o poder está, teoricamente, nas mãos dos representantes eleitos, os elementos meritocráticos incluem o uso de consultorias especializadas para ajudar na formulação de políticas, e a participação de especialistas civis, meritocráticos, para implementá-los. A questão problematizadora da Meritocracia é definir com clareza o que cada indivíduo concebe como mérito. O problema da Meritocracia se agrava quando esta é utilizada pelo poder constituído com certo grau de legitimidade para mascarar privilégios e indicar cargos chaves no poder com o fim expresso de tirar vantagens eleitoreiras e financeiras disto.
É perceptível que, por natureza, a sociedade sempre foi e continua sendo em grande margem meritocrática. Em quase todas as formas de ascensão na sociedade humana é, teoricamente, com base no mérito pessoal. É da natureza humana essa distinção, tornando-se numa espécie de "Darwinismo Social". Por esta razão se reproduzem estruturas sociais altamente competitivas, onde riqueza e diferenças sociais aparecem claramente.
Estas questões todas acabaram por produzir um tipo de ascendência política das classes marginalizadas pelo processo histórico. Valendo-se do amplo processo de democratização das últimas décadas, as massas conseguiram eleger legitimamente determinados ícones produzidos e esculpidos pela intelectualidade marxista nas cátedras de grandes universidades. Setores à esquerda da igreja, e movimentos sociais. Estes supostos líderes populistas criaram uma falsa noção de meritocracia das massas no poder. São falsas no mérito, justamente porque, ao chegarem ao poder usam das massas populares como manobra para se perpetuarem e, dão a impressão de que são merecedores de lá estarem, porque são de origem das classes menos favorecidas. Isto nem sempre é verdade, e, ainda que seja, não reproduz a verdade democrática no seu sentido pleno. Ao contrário, se utilizam das estruturas do poder para impor regras e condições que ultrapassam de longe os direitos equânimes e bem-estar geral. Criam um conflito de classes velado e subreptício, tornando as classes sociais reféns do medo de instabilidades e violência social. Lançam os seus séquitos como verdadeiros "cães de guerra" para tocar o terror quando não conseguem aprovar suas teses, quando veem a possibilidade de serem cassados do poder pelas urnas, quando são apanhados em seus delitos e pecados. Criam um terrorismo de palavras, compram os vendíveis para obter uma maioria falseada no parlamento, e, quando colocados em exposição negativa apelam para suas origens de lutas e de méritos históricos, que, em muitos casos são apenas lendas mal-contadas.
É neste sentido que a falsa Meritocracia se transforma em uma espécie de Oclocracia desvairada e obtusa que engana, mente, ameaça, e se impõe pela força. Desvia-se o foco do mérito para a supervalorização emocional do direito de estar no poder, quebrando os protocolos, e o ordenamento jurídico. Os pseudos-intelectuais, a igreja, e os esquerdofrênicos pagarão muito caro por aplaudir estas estupidas atitudes.

sábado, 10 de maio de 2008

O Estupro da Constituição I

Por definição, estupro é o ato pelo qual se consegue, por meio de constrangimento e violação, forçar alguém a manter relações sexuais contra a sua vontade. Por extensão de sentido estuprar é o forçamento, pelo emprego da violência, a qualquer situação que venha ferir a integridade da pessoa, dos seus direitos, da sua propriedade e da lei.
O direito à propriedade é consagrado na Constituição Federal em seu artigo 5º, sendo que no seu inciso XXII reza, "é garantido o direito de propriedade." Este direito envolve toda e qualquer propriedade, incluindo-se a rural e a urbana. No mesmo artigo, inciso XII, lê-se que, "a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial."
Os incisos XXIII, XXIV e XXV do art. 5º dispõem sobre casos excepcionais acerca da propriedade, entretanto mantêm todas as garantias legais aos seus proprietários. Em nenhum momento a Lei Magna dá o direito à violação da propriedade privada sob quaisquer alegações.
Antes de entrar no mérito da questão do estupro da Constituição que se vê nestes tempos, deve-se fazer uma panorâmica das últimas três ou quatro décadas. Isto é necessário, para que se coloque as coisas no devido lugar e se entenda o caminho que o país está trilhando. Também porque as novas gerações não viveram muitos dos fatos determinantes dos atuais acontecimentos.
Após o retorno aos governos civis verificou-se uma rápida evolução para uma espécie de abrandamento das normas jurídicas. Todo este embrólio mal versado foi, e está sendo elaborado com base no argumento que há uma realidade socioeconômica muito díspare no Brasil. De fato há muitas desigualdades e distorções perversas no seio do sistema produtivo nacional. É justo, pois, que se faça melhor distribuição e uso desta riqueza. Não é admissível que, em um país imenso e bem-dotado de recursos naturais, um único brasileiro seja privado de comer, morar, trabalhar, estudar, ter saúde, se divertir, etc. Isto ainda persiste, não por escassez de riquezas, mas por negligência dos governantes, por má gestão da coisa pública ao longo do tempo.
Neste processo histórico, finalmente chegaram ao poder os órfãos da ideologia marxista. Eles ficaram no meio do caminho, quando o movimento dialético da história fundado na "Guerra Fria" os interrompeu. Os movimentos eclesiais de base e outros movimentos camponeses dos anos 50 foram cessados em sua forma original. Deste contexto surgiram células clandestinas, movimentos salvacionistas, guerrilhas e sublevações estudantis, sequestros, assaltos a bancos e toda sorte de bandidagem em nome da democracia.
Nos anos 90, com o fim da bipolaridade entre capitalismo e socialismo, bem como com o fim vergonhoso do modelo de produção planificada na matriz soviética, eles começaram a chegar ao poder. Após o fim do regime militar e com o refino da anistia, os exilados e auto-exilados voltam ao Brasil. Eles reaparecem em cena, com seus cabelos grisalhos e cheios de rancores. Utilizam-se do pleno estado de direito e da liberdade de expressão, tornam-se candidatos e se elegem como únicas vítimas do sistema. Alguns, sequer foram perseguidos, presos ou torturados, mas adotaram um discurso único, a fim de sensibilizar o povo desinformado. Outros, sairam do Brasil, para estudar de graça pela CEPAL em Paris. Outros ainda, subprodutos da ala esquerdista da igreja dominante, iam pra a frente das fábricas com a habitual truculência, a fim de se projetar politicamente.
Ainda havia os esquerdofrênicos de buteco, isto é, esquerdopatas da classe média que compunham suas músicas e falavam bem de Cuba, enquanto o povo cubano sofria e ainda sofre debaixo do tacão de uma ferrenha ditadura. Quando iam a Cuba, frequentavam apenas o circuito politicamente preparado para eles. Viam só o que interessava aos desinformatas cubanos mostrar. Eram, como que, embaixadores do paradiso caribenho aos ouvidos dos pseudo-intelectuais brasileiros que se punham a cantar e decantar em verso e prosa o sistema castrista. Como pode alguém combater uma ditadura, para implantar outra?
Alguns desses "esquedistas escoceses", nunca trabalharam na vida. Viveram toda a sua juventude e maturidade destilando seus uisques nos bares da Lapa, Copacabana, Leblon, Farol e tantos outros pontos deste imenso pais.
Agora, sabe-se que todos estes esquerdóides são feitos da mesma matéria dos seus desafetos de direita. Se não torturam nas masmorras e porões, torturam por meio de um discurso mentiroso que promete reinaugurar o que já nasceu falido. Enquanto o mundo está abandonando e fugindo do modelo marxista, eles ainda sonham com uma América Latina revolucionária e libertária. Coitados, não sabem que não são as ideologias, os regimes, as formas de governos, os sistemas de governos que são bons ou ruins, mas sim, o homem que é um ser depravado e perverso sob quaisquer ideologias. Torturam com suas promessas falazes e seus discursos sofismáticos recheados de cinismo e dissimulação. Conseguem fazer da verdade uma mentira e da mentira uma verdade conforme seus discursos vazios de forma e conteúdo.
Usam falsos movimentos sociais e os pobres como "cães de guerra" para desequilibrar as instituições, estuprar a Constituição Federal, desestabilizar os poderes, corromper todos e tudo a fim de que se instale o caos. Utilizam a ingenuidade, "pero no mucho", dos indígenas, a fim de redesenhar as fronteiras norte como parte de um plano sinistro. Lançam mão de sistemas de cotas para negros, indígenas e estudantes de escolas públicas, disfarçando a escassez de competência e de habilidade em adotar uma política educacional duradoura, eficiente e eficaz. Isto só tem conseguido dividir brasileiros e criar tensões sociais.

sábado, 1 de março de 2008

A Cleptocracia Neófita e Deslumbrada

A palavra Cleptocracia, é originariamente grega, significando ipsis literis,governo de ladrões”.
A cleptocracia ocorre quando o Estado de Direito é suprimido por um poder discricionário de pessoas que chegaram ao poder político nos diversos níveis, conseguindo transfomá-lo em uma espécie de moeda de troca ou coisa venal, por diversos modos e formas. Nestes casos, e por vezes, se consegue dar certo grau de legitimidade à subtração de valores e recursos por meio dos meandros de leis não discutidas e não debatidas ampla e exaustivamente. Basta conseguir uma maioria parlamentar artificializada e comprada, para com isso, aprovar e multiplicar leis que favoreçam à Cleptocracia instalada. Muitos são os arranjos e rearranjos possíveis para dar aparente legitimidade ao que se quer nestes Estados assaltados por cleptocratas.
O Estado cleptocrático, como ente jurídico-político passa a funcionar como uma máquina de fazer dinheiro e gerar riqueza pessoal ou corporativa. Su
btraem-se os recursos financeiros da grande massa humana alienada. A população que trabalha e produz passa a ser vista como a "galinha dos ovos de ouro", satisfazendo, assim, ao apetite voraz dos gestores cleptomânicos. Tudo é feito em nome de políticas sociais, de distribuição de renda, de inclusividade social e de correção das distorções da iníqua política de dominação de ricos sobre pobres. Estas palavras mágicas ou frases de efeito, ainda que legítimas no mérito, são ilegítimas nos usos, nos meios e nos fins. O Estado de direito passa gradativamente de tutor da sociedade a uma espécie de gazofilácio do poder cleptocrático. Contrapõe-se à sua função de arrecadador de renda legal, por meio da cobrança de tributos, taxas e impostos, a doador fortuito às contas secretas de cleptomaníacos. Os poderes cleptocráticos são sempre muito eficientes para arrecadar, porém absolutamente inéptos e morosos na solução das reais necessidades humanas. Gastam muito, gostam de gastar e gastam consigo mesmos com mais entusiasmo do que com os necessitados.
Há sempre, e por decurso de tempo, a inclinação de os Estados tenderem a se tornar “cleptocracias absolutistas” pela ausência de combate real, consciente e organizado por parte dos seus cidadãos e por consentimento mútuo entre os cleptocratas e os seus parceiros.
Em economia real, a capacidade de os cidadãos combaterem a instauração do Estado cleptocrático está diretamente relacionada ao poder da sociedade portadora do capital social. Segundo Francis Fukuyama, Robert Putnam e Patrick Hunout, o capital social é uma referência ao conjunto de normas capazes de promover e manter confiança e reciprocidade na economia de uma sociedade. O capital social constitui-se de redes, organizações civis e do compartilhamento da confiança de certos segmentos da sociedade em franca interação. Passa obrigatoriamente pela compreensão da natureza das interações e do funcionamento das chamadas comunidades de práticas.
O estágio “cleptocrático” de qualquer Estado ocorre, essencialmente, quando a maior parte do sistema de gestão pública governamental é dominado por corruptores e por corrompidos politicamente
. É tipicamente um vício do poder duradouro e sem pressões das forças organizadas. Estas forças tendem, evidentemente, a se dar à frouxidão se partilham do poder cleptocrático. Quando elas estão na oposição, se gabam de serem os fiéis depositários da dignidade e da honestidade. Assim, há um conluio organizado e escorregadio diligentemente preparado para pronunciar o discurso de cartola a fim de dissimular a verdade. São "experts" em transtornar a verdade em mentira e a mentira em verdade por inversão de falas. Manipulam as massas por meio de artifícios e ludibriam os incautos por meio de apelos politicamente corretos. Eles escolhem alguns para serem seus inocentes úteis e, assim, passam a idéia de que o Estado está muito forte, organizado e vigilante. Enquanto as instituições centenárias se enfraquecem, eles discusam sobre quaisquer palanques encomendados para comover os deslumbrados.
O pior tipo de cleptomaníaco é o neófito, porque o deslumbramento da primeira vez,o faz pensar que é mais hábil e mais esperto do que os cleptomaníacos que o antecederam. Assim, ele entra com muita sede e se lambuza até se submergir em seu próprio visgo.
Asssim, se cumpre a falsa pronúncia do "nunca antes, na história desse país" se praticou tanto o "dando que se recebe". Ainda mais quando o "tudo pelo pessoal" dos ans 80 está aliado e solidário ao poder cleptocrático neófito.

A Oclocracia Instalada

Oclocracia provém do grego 'okhlos', que significa 'multidão, plebe' e 'kratos', que singinifica 'domínio, poder', não é, necessariamente, uma forma de governo, mas apenas uma crise instaurada nas instituições em função da ação irracível das multidões. Neste sentido, oclocracia indica uma espécie de opressão imposta pelas turbas ao poder legítimo e às leis, fazendo valer os seus intentos, interesses e caprichos colocados acima de quaisquer determinações do direito positivado.
A Oclocracia também se define como sendo o abuso que se instala em um governo democrático, quando a multidão se assenhoria da coisa pública.
Na visão clássica de Aristóteles, a Oclocracia é um dos três tipos específicos de degeneração das formas puras de governo, notadamente da Democracia .
Se os conceitos e definições não escapam ao senso, à percepção e à apreensão da cultura ocidental posta estamos, no Brasil, diante de um caso típico de Oclocracia instalada. Senão, vejamos! Quem hoje neste país se sente seguro em relação à propriedade rural ou urbana? Quem se sente seguro em relção à estabilidade econômica artificializada e maquiada por atores agenciados pelo Estado e colocados quase que a força nos postos estratégicos do planejamento e gestão pública? Quem se sente seguro ao sair de casa, seja para o trbalho, seja para o laser? Quem dá credibilidade no que a grande mídia escreve ou fala? Quem se sente seguro na defesa das fronteiras, no caso de um confronto pela Amazônia? Quem se sente absolutamente confiante ao comprar uma passagem aérea para vôos doméstics ou internacionais? Quem pode sentir completamente seguro em relação ao sigilo dos seus dados e informações pessoais, fiscais e bancários neste ponto da nossa história comum?
O país foi tomado de assalto e de sobressalto ao ver este ou aquele servidor público estender a mão para tomar das mãos de um corruptor, ou do seu preposto, um pacote de dinheiro diante de câmera oculta por mero industriamento sórdido. De igual modo, o país ficou perpassado ao ver o desenrolar dos valeriodutos e dos mensaleiros assaltando os bolsos dos contribuintes.
Como se pode acreditar que um determinado governo possa administrar o Estado de modo equânime, quando a intencionalidade é fazer clienteslismo com a coisa pública? Clientelismo, fisiologismo e outras aberrações da gestão pública no Brasil, joga o país na canaleta da oclocracia, visto que o Estado, na pessoa dos gestores maiores, premia as turbas menos favorecidas com políticas essencialmente populistas. Tal situação cria, na realidade, na mentalidade das camadas mais pobres, a idéia de que só têm direitos, mas nunca deveres. Insinua de modo velado ou ostensivo a noção de que todos os ricos, o são, porque roubaram os pobres. Assim, o Estado, na pessoa de alguns gestores, instala por conta própria a tensão social e instiga a luta de classes. Qual será o projeto? Com que objetivo? Para que?
Esta postura demodê, tem muito do bolchevismo do famigerado modelo do socialismo real instalado na Rússia de 1917. Não bastasse ser anacrônico, é também, e, principalmente estúpido, pois provou-se ineficiente em todas as socieades onde foi instalado e instaurado.
Toda vez que o poder central se vê ameaçado de ser posto em cheque, o gestor principal, se põe em campo e sob quaisquer pretextos usa do discurso emocional, a fim de comover as massas manobradas e manobristas. Esta é a psicologia oclocrática colocada em marcha neste país, por uma corja que só pensa em se dar bem a custa do dinheiro dos outros e do que foi construído pelo que consideram abominável.
Esta não é uma tese fortuita, mas uma constatação perceptível, visto que o oclocrata chefe, se pôs em autodefesa, por conta do escândalo dos cartões corporativos. Nestes momentos em que o seu projeto sinistro fica em descoberto, logo se põe a atacar a mídia, como também, as não-pouco atacadas "elites" e o grande capital. Como se não bastasse a disparada da metralhadora da mediocridade e falta de luz própria, ataca os outros poderes da República, como se viu nesta semana. Não fosse pouco o vexame da verborréia esquerdofrênica, o uso das palavras de baixo calão, como é próprio dos incompetentes apanhados em suas prevaricações e improbidades, também a desestabilização das instituições guardiãs do pacto federativo republicano.
Mas, como foram as "elites", os intelectuais e a imprensa imediatista e gananciosa que colocaram estes gestores no poder, que os mesmos se encarreguem de combater e abater a oclocracia deste mesmo poder.
"Nunca na história deste país" se viu tanta falta do uso da inteligência!

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Dekasseguis, O Retorno Às Origens I

Há exatos 100 anos atrás aportava nas plagas brasileiras, o Kasato Maru, trazendo em sua nave os primeiros migrantes nipônicos. Naquele tempo, a "Terra do Sol Nascente" não conseguia mais alimentar e satisfazer os desejos de todos os seus filhos.
Partindo, principalmente de Hiroshima, no ano de 1908 saiu o primeiro grupo, cerca de 781 emigrantes. Primeiro foi o navio Kasato Maru que aportou em Santos, São Paulo, a 18 de junho, sendo seguido do Ryojun Maru, a 28 de junho de 1910, trazendo 906 passageiros. Com eles, sonhos, esperanças, costumes e tradições. Seguiram-se outras tantas naos repletas de japoneses até a década de 1930, quando Getúlio Vargas criou leis de restrição à imigrção.
Inicialmente a causa da migração foi a ruptura do modelo feudal japonês e o início da industrialização e da urbanização. A população tipicamente rural passou a ser urbana e, por isso, surgiram grandes focos de pobreza. A mecanização da lavoura pressionou a população rural a mudar para as cidades que não comportavam a grande massa do êxodo rual. No Brasil, ao contrário, faltava mão-de-obra para trabalhar nos cafezais. Assim, um acordo entre Brasil e Japão permitiu a imigração de nipônicos para cá. Seguiram-se as duas grandes guerras mundiais, das quais o Japão participara ativamente, pressionando, cada vez mais, um maior número de migrantes para o Brasil.
Cerca de 1,5 milhões de japoneses migraram para o Brasil, sendo o período áureo, do ano de 1920 ao ano de 1930. Há diversos componentes determinantes do processo de migração japonesa. Havia grande pressão social, imensa saturação das cidades, elevado contingente de trabalhadores rurais desempregados e forte interesse do governo japonês em espalhar a etnia nipônica para o mundo, especialmente com vistas à fixação desta nas Américas. Este último elemento ideológico causou, inclusive, muita perseguição aos japoneses no Brasil e, mais tarde, nos Estados Unidos.
Com os migrantes orientais vieram muitas coisas, como por exemplo, o costume do uso do chá, o cultivo de determinadas frutas não conhecidas, verduras, legumes, criação do bicho-da-seda, etc. Surgiram novas técnicas de cultivo do arroz, influência idiomática, hábitos alimentares, entre outros.
Compreende-se melhor o migrante japonês por suas gerações. Assim, denomina-se de 'isseis' os imigrantes japoneses nascidos no Japão, representando cerca de 12,51%; os 'nisseis', filhos de japoneses, porém nascidos no Brasil com cerca de 30,85%; os 'sansseis', netos de japoneses, com 41,33%; e os 'yonisseis', bisnetos de japoneses, constituindo-se em 12,95%. Da totalidade de migrantes nipônicos, cerca de 90% vive em cidades. Estão espalhados, principalmente nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Pará. Dedicam-se hoje, a diversas áreas da atividade econômica, social e cultural.
O japonês oferece grande resistência à miscigenação, especialmente aqueles das primeiras gerações. Por isso, na primeira geração "isseis", a miscigenação foi de 0%; na segunda geração, os "nisseis" foi de 6%; na terceira geraçao "sansseis" foi de 42%; e, na quarta geração, "yonisseis" é de 61%. Ainda hoje o casamento entre um 'nihonjin' (japonês) e um 'gaijin' (estrangeiro) é mal visto pelos mais velhos. 'Ainocô' é o termo usado no Japão para o miscigenado resultante de uniões entre japoneses e outros povos. No Brasil é usado por alguns acadêmicos para designar o fruto das uniões entre japoneses e brasileiros e seus descendentes. Atualmente, o termo 'ainokô' (transliteração da grafia original) está em desuso em terras nipônicas, já que não é mais bem-visto por suscitar "racismo". Em seu lugar tem sido usado o termo 'half' para fazer referência às pessoas mestiças, que no caso de norte-americanos e japoneses são chamaos de 'amerasians'.
A II Guerra Mundial foi um marco muito forte para o Japão, pois a derrota para os Estados Unidos destruiu a esperança de muitos militares, os quais acreditavam ser possível dominar a América e expandir o Império Nipônico. Um coronel reformado chamado Junji Kikawa fundou o movimento Shindo Renmei, isto é, "A Liga do Caminho dos Súditos" para não permitir a divulgação de que o Japão havia perdido a guerra. Foram apelidados de "Corações Sujos" devido aos métodos pouco recomendados de impor a sua ideologia.
No Brasil, a comunidade japonesa protestou contra a entrada do país na guerra contra os interesses do Japão. A maior parte da comunidade de imigirantes japoneses permaneceu fiel ao imperador Hiroito. Tais imigrantes organizaram protestos e distribuição de panfletos contra a posição brasileira, sofrendo, por isso, forte perseguição. A maior parte dos imigrantes, não aceitou a derrota do Japão na II Guerra Mundial, e, por isso, a colônia ficou dividida em dois grupos: os 'makegumi' ou derrotistas, representando menos de 20%, pois aceitavam a derrota; e os 'kachigumi' ou vitoristas, os quais não aceitavam a derrota. Grande parte da comunidade japonesa erradicada no Brasil fez parte da Shindo Renmei à época do conflito mundial. A Shindo Renmei foi uma associação terrorista criada no interior de São Paulo no início da década de1940 por 'isseis'. Alguns membros mais fanáticos da associação, a 'tokkotai' cometiam atentados violentos contra os 'isseis' e nipo-brasileiros que acreditavam nas notícias da derrota japonesa na II Guerra Mundial. A Shindo Renmei matou, pelo menos, 23 pessoas e feriu outras 147, todas nipo-brasileiras.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Oriente Médio, Um Barril de Pólvora I

A partir deste, dar-se-á uma série de artigos sobre o "Oriente Médio". O tema é, por si só, intricante, necessário e curioso. Há inúmeras maneiras de se abordar um tema, sendo ele polêmico, ou não. Entretanto, alguns temas são, na sua própria origem, história e natureza, polêmicos. O "Oriente Médio" é um destes e transita desde a empolgação até a ira.
Não é por acaso que, ali, naquele palco milenar travam-se tantas e inumeráveis batalhas. Seus protagonistas, atores e coadjuvantes são, na essência, a própria polêmica que vive e revive pelos séculos.
Antes de se dar sequência a esta tarefa, são necessários alguns esclarecimentos. Primeiramente, o termo "Oriente Médio" não é suficiente, e pode-se dizer, que, é até displicente ou propositado. Visto que o planeta está dividido em quatro hemisférios, costuma-se denominar a porção à leste do meridiano de Greenwich como Oriente e a porção à oeste deste, de Ocidente. Considerando-se que a porção oriental, onde se localiza a região em tela, seja, em sua extensão e relação geográfica, dividida em extremo oriente, médio oriente e oriente próximo, a referida região, objeto deste artigo, situa-se no Oriente Próximo ou Ásia Ocidental.
Secundariamente, o que significa a expressão "Oriente Médio"? É o subproduto da historiografia eurocentrista que, por sua posição, considerava esta sub-região asiática, como sendo o ponto médio entre a Europa Ocidental e o Extremo Oriente. Isto remonta à época das rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente. Por imposição da ideologia ocidental prevalece ainda na mídia e nos livros a expressão "Oriente Médio".
O Oriente Próximo ou Ásia Ocidental é uma das sub-regiões do Continente Asiático e sua delimitação é determinada pela extensão das suas sub-regiões com todos os seus pressupostos culturais. Assim, o "Oriente Médio" se compõe da Ásia Menor, (onde está a Turquia), da Mesopotâmia (atual Iraque), do Planalto Iraniano (onde estão o Irã e o Afeganistão), do Levante (onde estão o Líbano e a Síria), da Palestina (onde está Israel e os territórios de Gaza e Cisjordânia, que, segundo se espera, formarão o Estado da Palestina), a Península Arábica (onde está a Árabia Saudita e mais alguns países) e o Sinai (que pertence ao Egito). Então pode-se dizer que a Ásia contém o "Oriente Médio" e, este, contém suas seis sub-regiões retromencionadas.
O "Oriente Médio" é de fato, a encruzilhada geopolítica do mundo. A partir dessa região, têm-se a Europa, a Ásia e a África, imediatamente mais próximas, e a meio caminho têm-se a Oceania e a América. Por isso, sempre foi alvo dos mais ambiciosos conquistadores ao longo da história, pois quem tiver o "Oriente Médio" às mãos, poderá ter o mundo rapidamente a seus pés. No livro do profeta Ezequiel há uma referência à centralidade de Jerusalém, a capital de Israel e cidade mais importante: "Assim diz o Senhor Deus: Esta é Jerusalém; coloquei-a no meio das nações, estando os países ao seu redor." A hermenêutica e a exegese mostram que tal centralidade pode ser objeto de mais de uma interpretação, mas é centralidade da mesma forma.
Jerusalém é hoje uma cidade dividida, disputada e pretendida por, no mínimo, três grandes segmentos histórico-religiosos: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Em nome de Cristo e da "fé cristã", o solo da cidade santa já foi muitas vezes banhado do sangue à época das cruzadas. Em nome de Maomé, árabes-palestinos e outros muçulmanos reivindicam o direito sagrado sobre Jerusalém e, finalmente, em nome da sua história ali iniciada e desenvolida durante muitos séclos, os judeus reivindicam-na como capital eterna de Israel. É, de fato, a pedra de tropeço colocada entre os povos e nações, porque tudo quanto sucede ao "Oriente Médio" sucede e afeta o mundo.