domingo, 29 de janeiro de 2012

A FORMAÇÃO DE UM "IDIOTA ÚTIL"

A mente humana é um campo muito fértil, podendo florecer quase tudo que nela se plantar. Dos eixos linguísticos, o associativo, por meio da camada ótica, é o que mais percebe, recebe e internaliza informações. Por informações subentende-se todo tipo de dados e fenômenos que podem ser captados pelos sentidos e armazenados na memória remota. Por exemplo, se você está no interior da sua casa e ouve um helicóptero passando sobre ela, não necessitará ir à janela, ou ao quintal para averiguar visualmente se é mesmo um helicóptero. Simplesmente em algum momento da sua existência esta informação foi captada pelos sentidos, associada a uma imagem formada pelos diferentes canais, e internalizada em sua biblioteca neuronal. Algumas pessoas possuem tal capacidade extremamente aguçada a ponto de aperceber-se de diferentes informações ao mesmo tempo, como também de dar o insight sobre seus conteúdos elaborados. A camada ótica é responsável por cerca de 73% das informações captadas e processadas na memórias imediata e remota. Por esta razão os especialistas em marketing usam tanto as imagens, as cores, a repetitividade, e os movimentos. As pessoas têm verdadeira adoração pelo sucesso, pela fama, pelo que é belo, e que, supostamente, lhes proporcionará bem-estar. É intrínseco à natureza almática do homem o desejo de coisas boas, ao que chamam de felicidade. Quem não gostaria de ter a tranquilidade de morar bem, comer bem, ter laser, frequentar bons restaurantes, teatros, shopings? Quem não gostaria de ter paz, aquela paz fruto de uma segurança de que jamais será assaltado, furtado, roubado, sequestrado, acidentado, e violentada em seus direitos? Quem não gostaria de viver em um país sem miseráveis, sem pobreza, sem desempregados, onde todos pudessem ganhar a vida pelo seu trabalho? Há uma constante inquietação na alma humana por encontrar respostas e soluções a muitos dilemas. Especialmente quando se vive em um país imenso e rico, como é o caso do Brasil.
Vive-se, atualmente, um tempo de muitas lutas: lutas pelo poder, pelo controle da informação, do voto, do fluxo de riqueza. O pior tipo de luta é pelo controle das mentes humanas. Como não é uma tarefa simples, pois o homem é uma unidade complexa e inteligente, usam-se de inumeráveis expedientes para tanto. São métodos antigos e variados ao longo do tempo, e em diversas situações e palcos históricos. Controlar indivíduos, segmentos da sociedade,  setores da produção, lenta e gradativamente, é o primeiro passo para controlar toda a sociedade. 
Alguém já afirmou, muito apropriadamente, que a mentira é a coisa que mais se aproxima da verdade. É fato, pois do contrário, não induziria ninguém a nada, uma vez que seria facilmente rejeitada. Vivemos um tempo em que a mentira está mais disseminada do que em qualquer outro tempo. Ela vem com a sua roupagem de engano, fazendo um verdadeiro estrago nas mentes imediatistas, consumistas e cheias de presunções. Nos últimos 25 anos a sociedade brasileira vem sendo bombardeada vinte e quatro horas por dia, com informações e desinformações.  A grande mídia, escrava das grossas verbas institucionais, está basicamente rendida e vendida. Informam e desinformam ao sabor dos interesses do vil metal.
A subversão ideológica e psicológica consiste em mudar a percepção do homem individualmente, e da sociedade como um todo. O bombardeio, ora de informações, ora de desinformações acaba por provocar uma incapacidade no indivíduo para processar inteligentemente o que se passa. Por confusão mental e preparo subliminar, as pessoas passam a imaginar que tudo é aceitável. Alguns imaginam que, não podendo entender tudo, é melhor confiar no mais óbvio e desejável. Passam a confiar em uma ideologia que os engana e seduz com promessas de felicidade para si, e para todos. A enchente de informações é tão grande que a pessoa se torna incapaz de processá-las, internalizá-las e respondê-las inteligentemente. Não consegue deduzir com a lógica simples e formal. Perdendo o seu self control, da sua família, das instituições, e mesmo da própria lógica da realidade.
Nos anos 40 e 50 as ideologias marxistas-leninistas tentaram controlar o país de modo organizado, mas falharam. Quando os militares tomaram o poder nos anos 60, eles os enfrentaram por meio das estratégias de guerrilha com treinamentos de jovens em Cuba, ex-URSS, e até mesmo na China Maoísta. Perderam a batalha por falta de articulação e de organização. Após o fim do regime militar, passaram a adotar a tática do cognominado 'marxismo cultural'. Por este método inundaram as escolas secundárias, as universidades, e as artes com a "politização" de esquerda numa espécie de lavagem cerebral. Acenam com a beleza de uma sociedade justa e igualitária, produzindo um grande número de "idiotas úteis"[Полезный идиот], nos dizeres de Vladimir U. Lênin. Este exército de iludidos se torna absolutamente alienado em uma nova utopia, pensando e reagindo a certos estímulos pré-inoculados neles pela repetitividade das ideias com nomes bonitos. Quando conseguem ajudar a instalar o novo sistema, e observam que não tem nada de novo e que são ditatoriais, abusivos, centralizadores e manipuladores, tanto quanto o sistema anterior, se desiludem e se tornam os piores inimigos. Aí são levados ao ostracismo, ou executados em paredões como qualquer outro idiota.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A TRANSMUTAÇÃO DA VERDADE EM MENTIRA

Transmutação é um substantivo feminino que, em genética, quer dizer a formação de uma nova espécie por meio do acúmulo progressivo de mutações na espécie original. Transpondo esta ideia aos fenômenos social, político, e econômico, pode-se dizer que as ideologias sempre estão em mutação. Até então, normal, pois é da natureza do universo a constante transformação. Todavia, quando está em vista a transmutação, tal fenômeno provoca, não apenas, uma mudança de diretrizes, mas a mudança na própria matriz. Uma vez a matriz alterada tem-se uma total mudança do que estava posto e conhecido. Não é mais a mesma ordem vigente e aceita como válida. O mundo é um palco de constantes mutações, sejam elas para bem, sejam para mal. O fato é que seus atores, devem ter plena consciência do que tais mutações irão representar em suas posições e em seus pressupostos. Sabe-se, no entanto, que estes processos são lentos, gradativos, e, por vezes, imperceptíveis. Nunca se tem uma transmutação pura, absoluta, e instantânea. Não é da natureza humana a unanimidade em processos de mudanças. O novo sempre vem, é verdade, mas em contrapartida ele sempre terá oposição. Também é da natureza humana se opor ao novo. 
A subversão é utilizada para implantar as mutações, e, posteriormente, chegar-se às transmutações. Por subversão se entende um processo de insubordinação contra as autoridades, as leis, e a ordem vigente. Trata-se de um conjunto de ações sistemáticas realizadas por elementos internos, visando minar e destruir um sistema político, social, e econômico. Tomam as contradições existentes, por exemplo, na religião e as expõem ao ridículo. Denunciam bombasticamente os erros dos agentes públicos do judiciário, do executivo, e do legislativo. Infiltram-se promotores de comportamentos contraditórios nas forças militares e de segurança, os quais promovem delitos, crimes, abusos, e imperícias. Mostram as fraquezas das organizações partidárias, e criam conflitos entre as classes sociais, especialmente entre os trabalhadores e a patronal. 
Paralelamente, e paulatinamente a grande mídia se rende aos apelos da subversão, porque depende dos milhões gastos em propagandas institucionais. Surgem diversas organizações paralelas ao poder constituído para tomar as decisões pela sociedade. A cada dia a sociedade organizada cede o seu lugar a pequenas organizações não oficiais. As escolas são transformadas em cátedras de alienação por meio de livros e cartilhas de doutrinamento. As novas gerações são deseducadas e transformadas em "focas amestradas" que reproduzem os discursos alheios sem examiná-los. Falam contra o preconceito, mas são mestres em emitir conceitos, sem conhecer as causas determinantes dos fatores. Exigem todos os direitos, mas não cumprem obrigações. É uma juventude sem contrapartidas, mimada, e autoritária.
A transmutação acontece quando a sociedade se torna inerte e incapaz de pensar e agir em conjunto contra a subversão dos valores. Neste ponto aparecem os subversivos oferecendo um novo modelo. Apresentam-se como os únicos salvadores da pátria e capazes de instaurar a ordem e o progresso. Neste mesmo momento aparecem os políticos profissionais oferecendo os seus projetos de leis para garantir as mudanças necessárias. Usam incansavelmente dos mesmos clichês e palavrinhas mágicas: justiça social, democracia, políticas públicas, avanços sociais, direitos humanos, modernidade, ações positivas, etc. Estas palavras têm o dom de hipnotizar as pessoas, sobretudo as mais carentes e necessitadas. A partir deste ponto surgem as primeiras reações entre classes sociais diferentes, instalando-se uma velada luta de classes. O pobre atribui à sua pobreza a acumulação de riqueza dos ricos. Os ricos afirmam que o problema é dos pobres que são desorganizados, imprudentes, preguiçosos, e revoltados. 
Uma vez instalados todos os tipos de antagonismos no seio da sociedade o clima está pronto para surgir o "Sassá Mutema", a saber, o mítico salvador das massas oprimidas e injustiçadas. Logo aparece a imprensa indicando o caminho, induzindo o que é certo, polarizando em torno de um nome preestabelecido. Uma nova ordem é imposta por meios aparentemente democráticos. Em seguida começam as queimas de arquivos, os descartes dos que sabem demais. Pessoas são acusadas, presas, banidas, e mortas em nome da nova ordem instalada. Assim, inicia-se um novo ciclo que em nada mudará a realidade transmutada. Apenas substituem corruptos, por corruptíveis. Assim, a verdade é o que é real e está posto diante do homem, e a mentira é o homem dizer que pode oferecer outra realidade melhor.
Por esta razão é que a única revolução possível e capaz de fazer algo significativo é a revolução do ser. Enquanto não houver alterações na natureza humana, é perda de tempo substituir os sistemas, regimes e modos de produção. A história da humanidade tem mostrado isto claramente. Os impérios se sucedem e os erros são sempre os mesmos!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O ESTUPRO DA CONSTITUIÇÃO II

Ambiguidade é um substantivo feminino que significa, em linguística,   diversas unidades, tais como, morfemas, palavras, locuções, e frases, admitindo sentidos diversos. Por admitir mais de uma leitura, então responde pela sua real aplicação, o contexto em que aparece, ou mesmo o juízo que o leitor fizer da mesma. Assim, o título deste artigo poderá se enquadrar em caso de ambiguidade, visto que permite ser lido que a Constituição foi estuprada ou que a Constituição pratica o estupro. Como não há intencionalidade, neste caso, de valer-se da norma culta para deixar clara uma única possibilidade de leitura, resta, portanto, a leitura que cada um conseguir fazer. Abstraindo-se o que se deve abstrair é mister que se verifiquem certos textos, em seus contextos, sem pretexto a fim de que se faça a leitura cabível. 
Ao analisar a Constituição da República Federativa do Brasil, notadamente a que foi produzida pela Assembléia Nacional Constituinte de 1988, veem-se diversos aspectos emblemáticos na sua redação. A começar pelo preâmbulo onde se pode ver algumas colocações, no mínimo, contraditórias para não dizer que são sem o menor propósito. Sabe-se, ainda, que o preâmbulo da Constituição não se constitui em norma central, e, portanto, não tem força normativa. Todavia, o tal preâmbulo é colocado em epígrafe, justamente porque é acatado como conteúdo sintético dos valores que norteiam a referida Constituição. 
Lê-se no preâmbulo, as seguintes afirmações: "Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL."
O verbo "assegurar" utilizado no contexto preambulatório é, no mínimo, desajuizado, posto que exige, não apenas, a afirmação, mas também os meios e os resultados das premissas a que rege. O Estado não tem assegurado os direitos sociais e individuais em sua significação democrática, pois nem todos têm acesso aos tais direitos. A liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça não são distribuídos democraticamente. Por democrático entende-se que o Estado responde em perfeita isonomia os mesmos direitos dos cidadãos, independentemente das suas condições socioeconômicas. 
Igualmente, o texto do preâmbulo afirma que o Brasil é uma "sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos." Nem por força de mágica, ou de fé, se pode afirmar, ou mesmo, assegurar esta afirmação. Fraterno é um termo que nos remete à ideia de irmandade, onde todos se amam e se respeitam igualmente, apesar das diferenças. O pluralismo é um fato incontestável, pois o próprio processo histórico se encarregou de produzi-lo. Acrescenta-se que há diversas categorias de pluralidade: étnica, religiosa, econômica, cultural, política, filosófica. Os preconceitos, a saber, quando se tem um conceito antes de ter conhecimento de causa, são os mais conhecidos da sociedade brasileira. Todos os dias são denunciadas atitudes preconceituosas de todos os níveis na mídia. Isto sem contar aquelas pessoas que são vítimas silenciosas que não denunciam por medo, ou por não ter informação, ou ainda por achar que não está sendo atingida em sua integridade.
Finalmente, o dito preâmbulo, invoca a proteção de Deus para a promulgação da Constituição. Ora, como pode um conjunto de representantes inserir tal afirmação em uma Carta Magna, ou Lei Maior, quando a mesma se destina à regulação de um Estado laico? Além do mais é muito temerário invocar o nome de Deus para proteger representantes de diversos matizes, incluindo-se os ateus professos e não-professos. 
Não se pode forcejar Deus a proteger uma Constituição destinada a uma sociedade permeada de injustiças, desmandos, desgovernos, corrupção, desigualdades e arbitrária com a coisa pública, como é o caso do Brasil. Deve-se, no mínimo, não envolver Deus nesta trama sórdida, para não correr o risco d'Ele reivindicar a sua justiça. Muito pelo contrário, deveriam ter imenso temor de invocar Deus na proteção de um país onde se faz barganha com o voto que deveria ser livre, posto que arroga-se ser um Estado Democrático de Direito.

Quando eu sou o sujeito que escreve

De todos os verbos que conjugo todos os dias e de todos os atos que pratico por rotina, "escrever" é o que mais me intriga, e o que mais me consome.
Porque quando eu me sinto, debruçada por sobre uma folha de papel com todos essas linhas vazias, eu sou o sujeito que pratica a ação, e, de um jeito ou de outro, sou também o que sofre a mesma.
Cansando o lápis com símbolos que chamam de letras, feitos para formar palavras, que por sua vez formarão frases. Mas acontece que o sentido, a coerência e o contexto, são todos por minha conta e risco.
Seja minha voz ativa, passiva ou reflexiva, cabe a mim não perder o enredo. Escolher o jeito certo para dar o começo, persistir fielmente e não pecar pelo desfecho.
Na primeira pessoa, eu faço, mas na segunda e na terceira também não há diálogo sem mim. Seja eu narradora, uma multidão inteira, homem ou mulher ou apenas espectadora .
Escrevendo minha personalidade é anulada, e como que num passe de mágica, é transferida para um conto, uma história, um crônico acontecimento, que, fora desse texto, nem pareceria merecedor de tamanha importância.
É isso que venho feito nos últimos anos, mais que nunca nos últimos meses. Pegar o simples e enfeitá-lo, mostrar que muitas vezes o detalhe mais bobo que passa despercebido, pode ser o clímax, pode ser a peça que falta para dar sentido.
Porque ao contrário do que acham por aí, nós não somos máquinas. E as experiências por quais passamos diariamente tem lá o seu valor.
É impossível ser sempre igual, sempre o mesmo, sempre perfeito, e até o erro de repente pode ser algo que se valha passar a diante.Tudo depende do modo como se conta a coisa toda, como mostrar a alguém que o "normal" esconde milhares de motivos pra ser engraçado, pra ser bonito, e pra deixar uma mensagem.
E quanto a mim, nesse papel que assumi por distração e por instinto, pois escrever é ainda mais que meu maior vício, é uma paixão sincera disfarçada de capricho.
Nem sempre sou feliz em todas as minhas conotações e nos meus comentários, apenas falo o que penso, e, que me desculpe a gramática, mas pra mim, pensar é um verbo indefinido.

A Passageira

Ela vai de trem, volta de avião, a estação é a sua casa, a estrada o seu chão. Ama a vida que tem, ama tanto que odeia, sem pesar vai-se embora, mais uma vez, a passageira.
Guarda o mundo dentro de seus olhinhos escuros,um pouco grande do mundo que pôde recolher, Mata Atlântica, Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal, todo um pouco de Brasil carrega, se vale e faz sentir saudades.
A pequenina mulher com uma mala nas mãos e uma mochila nas costas,o peso de errar sem paradeiro e nem prazo pré estabelecido, ela aprendeu a não ter medo do desconhecido, e conheceu a falta que sente e a falta que faz sentir.
A jaqueta marrom de couro carrega no braço, caso vá esfriar, veste a fina regata bordada e a calça jeans folgada, não sabe como o tempo estará.
Junta todos os seus detalhes, seus pesares, suas dores, reúne todos seus olhares, suas cismas e amores. E vai. Vai como na primeira vez, vai desconfiando internamente de que não será a ultima.
Ela deixa pegadas à sua maneira, discreta demais pra cravar marcas,forte demais pra passar sem deixar seus sinais.
Fala coisas sobre as gentes diferentes do que a gente é, ninguém é igual, ela se permite ser interlocutora da diferença.
Conta casos de viajantes solitários e histórias pra dormir que aconteceram de verdade, cita nomes, apesar de esquecer um ou outro, afinal, foram tantos. Mas nunca esquece de fazer com que se viva a sua lembrança narrada em viva voz.
O tempo que compete com ela já alcançou singelamente as suas formas, deixou mais brancos os seus cabelos, traçou linhas leves sobre sua face. Mas ela não demonstra o seu tão grande cansaço, ela ainda é linda quando sorri, é perfeita quando é o que nasceu pra ser.
Por isso ela tem que partir, tem que aceitar, vai ter que se encantar com outros cantos, se apaixonar por outro lugar.
Deixou seu coração com outro alguém pra não perder o senso de direção nem a coragem, com as passagem marcada de ida ela se prepara para viajar, sem datas marcadas ou promessas precisas,mas ela vai voltar.
Vai voltar porque é esse o seu destino, vai voltar por não ter porque lá ficar, e além disso apesar de não ter mais coração, ela ainda sabe o que amar.

certo por réguas tortas

Todo mundo tem uma história pra contar, um quase desastre que virou piada, uma vitória de supetão que virou lembrança.
Pois veja que realmente esses "erros’’ e trapalhadas são fundamentais para a descoberta de coisas boas. Se Cabral não tivesse errado a rota, tinha perdido a oportunidade de conhecer esse paraíso que é o Brasil, por exemplo.
Uma amizade que prezo muito começou assim. Estava na papelaria ajudando uma amiga a comprar os materiais escolares para o começo das aulas, e estavam lá também dois garotos que nós nunca tínhamos visto na vida, lembro que até comentamos isso uma com a outra.
E, na hora de pagar, eu peguei por engano a régua de um dos moços. O mais velho olhou pra mim e falou: _ ei, acho que isso aí é meu. _ Fiquei com tanta vergonha na hora que nem pedi desculpas, devolvi a régua e sai correndo da loja, morrendo de rir e esperando minha amiga do lado de fora.
Pra minha surpresa, logo descobri que um dos garotos não apenas estudava na mesma escola, como na mesma sala que eu, e logo atrás de mim, e o outro, eu ainda iria ver muitas vezes.
Mas hoje a gente acha graça, foi o primeiro assunto que tivemos e que deu oportunidade pras longas e divertidas conversas que vieram depois. Por isso é que costumo dizer, que ás vezes é realmente necessário dar aquele "empurrãozinho" básico no destino, pra que as coisas boas realmente possam acontecer.
Não estou dizendo que o certo seja jogar tudo pro alto ou sair se arriscando por aí sem mais nem menos, longe de mim. Mas testar a sorte de vez em quando, não faz mal a ninguém. Se todo mundo pensasse nas minúsculas chances de ganhar na loteria, ninguém jogaria, e consequentemente, ninguém ganharia.
As coisas não caem do céu, não sem um esforçozinho vindo da nossa parte. Conheço a história de uma mulher que queria arranjar marido, já tinha feito de tudo, e nunca dava certo, um dia, revoltada da vida, jogou o Santo Antonio pela janela, que foi cair justamente na cabeça do seu futuro marido.
Nem sempre vai dar certo, é claro, e acho que é demais querer que todos concordem que a decepção vale a tentativa. Mas pra mim ao menos , vale mesmo. Antes tentar e não conseguir do que ter que conviver com a dúvida por nunca ter tentado. Na minha opinião Deus escreve certo, por "réguas" tortas .

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

ARGUMENTOS E CONTRA-ARGUMENTOS

Uma das características da natureza comportamental do homem é a reação contra qualquer coisa que se oponha à ordem vigente. O  medo da mudança traz no seu bojo, o medo da perda. Por isso, quase sempre a mudança vem acompanhada de uma sensação de subversão da ordem. No próprio modelo dito dialético é assim, contra a tese, vem a antítese, e o resultado é a síntese que se constitui numa nova tese e assim ad infinitum. Toda vez que se estabelece um grupo e alguém se levanta para propor algo que subverterá a ordem vigente, logo surgem as ideias contrárias. Isto é normal, e salutar, pois, conforme Nelson Rodrigues, "toda unanimidade é burra." Claro, não é da natureza humana a concordância e a discordância absoluta. Caso houvesse, tanto uma, como a outra, algo estaria errado, pois estaria indo de encontro à normalidade divergente do homem. Pois bem, a despeito do reconhecimento desta idiossincrasia, avanços e retrocessos são o resultante desta realidade. A construção da história humana é a evidência deses fatos. 
Recentemente foi colocado diante do povo do estado do Pará uma consulta à opinião pública por meio do mecanismo do plebiscito. Naquele 11 de dezembro de 2011, o povo paraense, aqui usando este patrônimo por força de que se trata de uma unidade da federação, optou pela não criação de dois novos estados: o Carajás e o Tapajós. Está tudo dentro da legalidade prevista na Constituição Federal, e no ordenamento jurídico atinente a esta questão, em nível federal e estadual. Nada fora dos parâmetros legais, não é esta a discussão. Entretanto, tal resultado provocou o despertamento dos cidadãos destas regiões emancipacionistas. Evita-se aqui o termo separatistas, porque este teria um teor um tanto dúbio. O fato é que se de um lado os paraenses da região Nordeste do estado, especialmente da Grande Belém, optaram pela não-emancipação, por outro lado, os habitantes do Carajás e do Tapajós cuja votação pela emancipação foi expressiva, despertaram para a sua dura realidade de abandono socioeconômico.
É deste contexto do despertar de uma verdade há muito adormecida, que surgem argumentos de ambos os lados. Por exemplo, alguns que optaram pela não emancipação, dizem que seria uma mutilação do estado que é uma unidade federada desde a formação histórica do Brasil; outros dizem que seria um aumento vertiginoso de gastos para o erário público na construção da estrutura e infra-estrutura político administrativa; outros ainda dizem que aumentaria o número de políticos, e, consequentemente aumentariam os gastos para mantê-los. Entre outros argumentos, estes são destacáveis como de maior popularidade e aceitação.
Todavia, contra-argumenta-se, valendo-se de fatos reais na história recente do país. Após o fim do regime militar surgiu uma nova Constituição Federal em 1988, a qual trazia em seu corolário a previsão do instituto do plebiscito para tratar de assuntos de grande relevância para a República Federativa do Brasil. Dentre os dispositivos previa-se a possibilidade de integração, divisão, e anexação de territórios federados. Os primeiros a serem divididos foram o Mato Grosso e o Tocantins. Naquela época os argumentos eram basicamente os mesmos de hoje. A emancipação foi aprovada e o tempo se encarregou de mostrar os equívocos. Hoje tais estados, MS, MT e TO são prósperos, obviamente de acordo com o modelo de desenvolvimento predominante. Também os antigos Territórios Federais de RO, RR, e AP foram transformados em estados da federação. Os mesmos argumentos foram usados, mas comparando-se as duas realidades, estão bem melhores hoje. Ainda o território Federal de Fernando de Noronha foi anexado ao estado de Pernambuco por questões de segurança nacional. Hoje é uma área de reserva ambiental especial em pleno oceano Atlântico.
Conclui-se que as divisões de algumas unidades federadas que ainda estão pendentes não fugirão à esta regra. A questão é: há interesses difusos e confusos nesta questão específica do Carajás e do Tapajós. Talvez por suas localizações e seus potenciais econômicos. 
Veremos quando chegar a vez de Minas Gerais.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O DESCORTINAMENTO DE UMA VERDADE

Há um adágio popular que diz: "os números não mentem, mas são feitos por mentirosos." Tomando-se as devidas proporções no tocante ao plebiscito do último dia 11 de dezembro de 2011, tal anexim aproxima-se muito da verdade. Tem-se hoje o estado do Pará como uma das 27 unidades político-administrativas do Brasil. É uma unidade da federação geograficamente maior que dezenas de países do globo. Entretanto, é brutal a desigualdade socioeconômica. O mais grave, neste caso, é a enorme diferença de tratamento relativamente ao bem-estar social. São dezenas de municípios desprovidos do mínimo necessário à sobrevivência: saúde, educação, transportes, energia, telecomunicações e moradia. 
O resultado do plebiscito descortinou uma verdade oculta à maioria dos brasileiros: uma população vivendo à margem da vida, porém em meio a enormes riquezas naturais. É como ser pobre em um país rico, por isso, as desigualdades se tornam muito gritantes. Ser rico em uma sociedade rica, ou pobre em uma sociedade pobre não evidencia absolutamente nada, pois o anormal parece normal a todos. Todavia, viver de modo desprotegido em meio a enormes riquezas é, mais do que desigual, é desumano. Esta é pois a realidade das regiões do Carajás e do Tapajós. Do ponto de vista de recursos naturais e econômicos são mais ricas que todo o restante do Pará. Porém, do ponto de vista dos benefícios destas riquezas aos habitantes, é mais pobre do que muitas outras regiões do Brasil. 
Os tecnocratas do IPEA deram a opinião deles antes do plebiscito, afirmando que estes estados seriam inviáveis economicamente. Pois bem, qual estado ou território brasileiro era viável quando foram criados? Este discurso serve a, no mínimo, dois propósitos: manter o status quo dos que estão no poder, ou manter o fluxo de riquezas das regiões do Carajás e do Tapajós na direção de outros pontos do estado, e do país.
No mesmo viés leem-se opiniões postadas na mídia virtual, afirmando que tal divisão só serviria para dar lugar a um maior número de políticos e maiores gastos públicos para manter o aparelho administrativo dos possíveis novos estados. Pois bem, é verdade, porém pergunta-se que diferença faz eleger políticos subordinados aos interesses do governo estadual em Belém e elegê-los para responder diretamente à população dessas regiões? Esta última opção é preferível aos olhos dos que vivem no Carajás e no Tapajós.
Finalmente, os resultados do plebiscito serviram muito, porque mostram, que, o total de 95% do "SIM" no Carajás e no Tapajós juntos representa o descortinamento de um desejo, e mais do que isto, de uma vontade.  Os resultados parciais foram muito sugestivos também, pois segundo os dados do TRE/PA foram os seguintes:
Região do Carajás: 
SIM = 33,4%
NÃO = 66,60
ABSTENÇÕES = 25,71%
NULOS = 1,05%
BRANCOS = 0,41%
Região do Tapajós:
SIM = 33,92%
NÃO = 66,08%
ABSTENÇÕES = 25,71%
NULOS = 0,49%
BRANCOS = 1%
A leitura destes dados se torna mais clara quando se sabe que o Nordeste do Pará é mais populoso e, interessado em manter a atual situação, votou pelo "NÃO". Entretanto, um terço dos eleitores nas respectivas regiões separatistas não é um valor a ser desprezado politicamente. Poderão ser perfeitamente usados nas urnas em 2012 e 2014.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

ENTRE O SIM E O NÃO, FICOU SIM, UMA DÚVIDA

O plebiscito para a divisão do atual estado do Pará, e a criação de dois novos estados, o Carajás e o Tapajós, ocorreu no dia 11 de dezembro de 2011. Fora as questões de ânimos acirrados de ambos os lados, o que é comum nesses casos, tudo transcorreu na mais perfeita ordem da civilidade. Entretanto, este foi um processo que já nasceu fadado a uma única resposta, o "NÃO", pois todo o estado do Pará foi submetido à escolha. Ora, partindo do fato que a região mais habitada fica no noroeste do estado, onde não querem a divisão, obviamente prevaleceria o não. É o que comumente se designa por "favas contadas." Não é necessário um profundo exercício de matemática para saber previamente de um resultado desses. 
Um plebiscito é, como a própria palavra induz, uma resposta do povo, das massas, da plebe. Provém do latim 'plebscitu', que, na Roma antiga era tratado e considerado como o voto ou decreto passado em comício, obrigatório apenas para os plebeus, em sua origem. Na atualidade alguns Estados utilizam-se do plebiscito antes de editar, positivar e validar a norma que recai num ato legislativo, ou administrativo. São os cidadãos, no uso das suas prerrogativas que votam pelo sim, ou pelo não, nas questões atinentes aos seus interesses. 
No caso do Pará, registra-se com base em coleta de dados e informações concretas resultantes da votação, que embora o resultado foi proclamado como "NÃO", na verdade, deu o "SIM". Obviamente que estamos diante de um aparente paradoxo, pois como "não" é "sim"? Bem, a informação real é que somando as populações votantes das regiões do Carajás e do Tapajós, o "SIM" somou cerca de 90%. Logo, o que sobrou foram os míseros 10% restantes. Neste caso fica a enorme dúvida: deu "SIM", ou deu "NÃO"? A vontade dos cidadãos do Carajás e do Tapajós é que sejam autônomos os seus respectivos territórios. Mas, a vontade burocraticamente engendrada do restante é que a situação permaneça como está. Isto lhes rende vultosas somas de arrecadação, como também a dilapidação do patrimônio genético, energético, mineral destas regiões. 
O povo sofrido, abandonado e pouco assistido pelo aparelho do estado do Pará está profundamente decepcionado e na dúvida: como o "SIM" é "NÃO"? Pois bem, pelo sim, ou pelo não, resta-lhes não depor as armas. Há outras vias para conseguir a autonomia político-administrativa, e promover o tão desejado e esperado progresso que permanece nas mãos de uma meia dúzia de paraenses que tratam a coisa pública como feudos de propriedade hereditária e particular.
O processo não está encerrado, e muito menos, sacramentado. Os cidadãos podem encaminhar projeto de lei popular e propor um novo plebiscito. Ainda podem caçar os contrários por meio das urnas nas próximas eleições. Escolher representantes que sejam favoráveis à autonomia e que lutem por ela em todas as instâncias.
O fato é que o resultado abriu uma enorme ferida que já existia, porém estava encoberta por curativos e bandagens artificialmente colocadas. Agora a ferida precisa de uma cura completa e satisfatória para a saúde do Carajás e do Tapajós.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O PAÍS DAS ANALEPSES

Uma das tendências da natureza humana é lançar mão do passado para justificar, ou mesmo explicar, o presente. Até aí é uma atitude que encontra lastro no processo histórico. Pelo menos deveria ser assim, pois tal atitude evitaria muitos transtornos. À guisa de exemplo, se Hitler tivesse levando em consideração o erro de outros invasores, não teria invadido a Rússia no inverno. Em certos casos, o passado serve de referencial até mesmo para delinear o futuro, procurando evitar os mesmos erros cometidos. 
Nestes sentidos, e considerando as inclinações naturais do homem, especialmente do brasileiro, pode-se afirmar que o Brasil é um país com fortes raízes nas práticas político-econômicas do passado, seja o remoto, seja o recente. Até aí, nada de anormal, porquanto em quase todas as civilizações as coisas ocorrem desta forma. Há sempre os "flashbacks", como também os "cut backs", ou os "switchbacks". As referências são sempre remontadas às experiências do passado, envolvendo planos econômicos, governos e seus feitos bons, ou ruins.
A analepse é um termo comum na literatura, sendo uma figura de sintaxe que designa uma espécie de retrocesso por meio de uma interrupção de sequência cronológica. Faz-se uma interpolação de fatos e acontecimentos ocorridos no passado para fortalecer as posições, ou posturas presentes. Tal é utilizado como forma de assegurar posições futuras mais seguras, pois pautadas nas referências pretéritas. É, portanto, uma anacronia, a saber, uma alteração do plano temporal de algum evento, ou numa série de eventos. 
Em cinema, o "flashback" é um recurso importante para recorrer aos fatos passados e explicar os fatos atuais, ou futuros. Funcionam como pontes para aguçar o raciocínio do telespectador, levando-o a se tornar um agente investigador ao longo da exibição.
No Brasil, transportando a ideia para a política e a economia, temos múltiplos exemplos da analepses. Muitas pessoas com mais de 60 ou 70 anos, se consultadas, afirmam sem dúvidas que o melhor governo foi o de Getúlio Vargas. Outros, na faixa dos 40 ou 50 anos, afirmam que foi o governo de Juscelino Kubitschek. Ainda, outros, preferem valorizar o período do regime militar, por razões de segurança e manutenção do Brasil na ordem mundial vigente, a saber, a Ordem Bipolar. 
Na contramão destas posições encontramos alguns rancorosos de esquerda que preferem remontar aos anos 50, supervalorizando as comunidades eclesiais de base, expressões reais da esquerda católica. Outros preferem fazer laudatícios às células comunistas clandestinas durante o que eles denominam de "ditadura" militar como sendo atos heroicos. Ainda há os que guardam o movimento das "Diretas Já" como digno de mérito patriótico, sendo que os militares mesmos fizeram o processo de abertura e de anistia. 
A conclusão é que vivemos em um país das analepses, mas que na prática, não se toma o passado como referência para corrigir erros presentes, e projetar um futuro retilíneo. Tais teses e discursos são apenas úteis para os diversos e diferentes palanques que se exaltam em retórica, mas carecem de praxis. Todos estão jogando uma espécie de jogo para chegar ao poder, entorpecendo as mentes dos incautos e alienados. Como bem diz o adágio popular, "o que passou, passou", ou mesmo outro anexim: "deixe o passado, no passado." 
Na atualidade foi aprovada a criação da famigerada "Comissão da Verdade". Tal comissão tem por meta investigar abusos e crimes do período do regime militar. Ficou a cargo do presidente da República nomear os seus membros que trabalharão nas consultas dos documentos secretos, agora liberados. Entretanto, tal comissão já nasceu unilateral e com base numa visão míope e portadora da "síndrome do coitadinho". Os escolhidos e indicados se debruçarão apenas sobre investigação para culpar militares e agentes do Estado que cometeram excessos, abusos, crimes. Ora, naquele tempo, não apenas um lado cometeu tais atrocidades, mas ambos. Os erroneamente chamados revolucionários e guerrilheiros também mataram, inclusive companheiros de guerrilha, roubaram, sequestraram, prenderam, prevaricaram, mentiram, dissimularam muitas coisas para por a culpa nos agentes do Estado. Então, se se quer fazer, de fato, justiça e trazer à lume a verdade, deveriam investigar os documentos em seu inteiro teor.
Vamos fazer das analepses, também prolepses!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O PAÍS DOS OXIMOROS

O Brasil pode ser nomeado, substantivado, e adjetivado de diversas maneiras, e por diversos recursos de linguagem. Usam e abusam de ufanismos para definir e redefinir o Brasil. Este viés é antigo, por isso, retratado em poética decantada pelas escolas, e cantada por vozes dos mais diferentes matizes e estilos. Costuma-se nomeá-lo de "país continente", "democracia racial", "nação emergente", entre outros. Agora, inclusive, querem nos enfiar goela abaixo uma série de solecismos como aceitáveis, em contraposição à norma culta. À guisa de exemplo, temos o recente caso do "nois pega o peixe" do material didático adotado pelo MEC nas escolas públicas.
Em 1900, o conde Afonso Celso escreveu o livro, "Porque Me Ufano do Meu País". A partir desta obra desenvolveu-se uma forte tendência à exacerbação do patriotismo, pelo menos, em palavras, e muito menos em atos. De lá para cá as coisas não se alteraram muito. Mudaram-se os personagens, mas o hábito dos oximoros permaneceram.
Define-se como oximoro uma figura de linguagem clássica que confronta duas ideias opostas, afim de formar uma terceira concludente. Tal processo, ou recurso força o leitor a buscar uma saída metafórica para entender o sentido do que se declara sobre o sujeito. Assim, na expressão: "um instante eterno", o leitor é conduzido a uma breve confusão entre o que é instantâneo, e o que é eterno. São ideias opostas, mas que, pelo sentido desejado produz uma terceira via. Neste caso, fica subentendido que a intensidade do instante é tão forte, que faz perder a noção de tempo. Tal recurso é frequentemente utilizado pelos místicos e pelos românticos. 
É uma alternativa retórica que depende exclusivamente da interpretação pessoal de quem ouve, ou lê. Por isso, bastante útil aos círculos políticos, econômicos, e acadêmicos. Por esta razão alguém, já afirmava em música: "eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada." A ideia 'deles' é esta mesma!
Desta forma alguns comunicadores são exímios oximoronistas, pois eles dizem o que querem, não dizendo-o diretamente, e deixa o ônus do resultado na conta de quem interpretar. Não respondem pelo dito, pois não vale o dito pelo dito, mas o dito pelo não-dito. Destarte, eles dizem por exemplo, "fulano de tal fez uma declaração tácita". É uma declaração verbal, ou apenas subentendida? O tácito serve como prova verbal, e confessional? Quando apertado pelos opositores, tais afirmações acabam numa explicação mais ou menos assim: "bem, ele não quis dizer isso, ou aquilo." Ora, não quis, mas disse! É tão forte este comportamento que os comunicadores da 'mass media' afirmam sobre certas acusações, investigações, e apurações: "o suposto esquema de desvio de verbas." Não querem assumir o ônus de terem julgado e condenado alguém, cujo delito está mais do que comprovado.
O personagem do seriado humorístico mexicano, Chaves, sempre diz: "foi sem querer, querendo." É precisamente isto que é um oximoro. Neste sentido temos no Brasil experts nesse recurso. É uma tal de "lúcida loucura", ou mesmo um tal de "silêncio eloquente", ou ainda a famosa "inocente culpa".
Assim seguimos 'adelante', pois nunca na história deste país se viu tantos oximoronautas, que estão mais para desinformatas em benefício próprio.
Ad infinitum et ad nauseam.... 

domingo, 11 de dezembro de 2011

O PAÍS DOS CIRCUNLÓQUIOS

A banda Legião Urbana cantou e decantou em verso e prosa a música: "Que País É Esse". O vocalista diz na primeira estrofe: 
Nas favelas, no Senado
Sujeira para todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da Nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
A voz do inquiridor persiste no tempo e no espaço: que país é esse? O protesto verbalizado na voz de Renato Russo continua ressoando retumbante 'ao som do mar e à luz do céu profundo'. O Brasil precisa de respostas e não apenas de propostas. O Brasil precisa de soluções e não de simulações em teses academicistas que são meras ideologias. O Brasil tem fome e sede de verdade. O Brasil tem urgência de ética e seriedade. Não bastam discursos vazios de realidade, pois palavras são palavras, nada mais que palavras, permita-se o clichê. Não se servem ideologias no almoço e no jantar.
O circunlóquio é uma figura de linguagem na qual o orador foge ao foco central da discussão para assentar praça na periferia dos fatos. Valendo-se de expressões exageradamente retóricas, o falante anda em círculos pelo abuso de múltiplas palavras. Deixa de dizer o que de fato importa, encobrindo, assim, a verdade que a ele não importa. Torna complexo, o que é essencialmente simples.
É recorrente em propagandas institucionais, especialmente na atual governaça, o uso e o abuso dos circunlóquios. Há paralelamente às falas, um forte apelo à camada ótica por meio de imagens bonitas sobre realidades feias. Mostram um Brasil que de fato, só existe para poucos. O telespectador é obrigado a inquirir outra vez: que país é esse? O país que mostram nas propagandas eleitorais, por exemplo, difere substancialmente do país real e conhecido pelos que transitam por suas plagas.
Os circunlóquios começam na educação, pois desde os livros didáticos adotados até as estruturas físicas das escolas, não encontram eco na urgência e necessidade do processo. Em muitas escolas mais se deseduca do que educa, visto que os meios são antagônicos aos fins. A universalização da educação é algo desejado, porém sem ser acompanhada dos instrumentos indispensáveis, não surte os efeitos que se esperam. Ainda que todas as crianças, adolescentes e jovens estejam dentro de uma sala de aula, não há garantias de que estejam recebendo instrução adequada. Os índices internos e externos mostram a realidade, quando comparados a outras nações. Tal processo capenga tem produzido milhões de analfabetos funcionais. A melhor evidência desta triste realidade é a escassez de mão de obra qualificada. Chegou-se ao ponto de as próprias empresas providenciarem a qualificação de pessoas. As universidades sucateadas, mal conseguem expor aulas teóricas.
Os circunlóquios se estendem até a esfera da economia. Mostram índices comparativos por trimestres do ano anterior em relação ao ano em curso. Nada mais falso do que isto! São processos diferentes, em momentos diferentes. É um recurso para evidenciar alguns milésimos de crescimento, quando muito. Todavia, o que importa ao povo é se há casa para morar, gás no botijão, comida para servir, água tratada, esgoto, segurança, e emprego com salário fixo. Expurgam determinados itens da cesta de consumo, visando suavizar a realidade inflacionária que se acelera mês a mês. Assim, quando dizem: "estamos trabalhando para conter a inflação" deveriam de fato dizer: "a inflação está alta e não temos controle dela". Usar de gerundismos para explicar o que é óbvio e ululante, não satisfaz a urgência do cidadão que trabalha e paga elevada carga tributária sem privilégios mínimos.
Então, chega de circunlóquios! O Brasil não pode continuar nos solilóquios!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Com que direito?

Todo mundo gosta de futebol. Bom, nem todo mundo. Mas garanto que eu, todos os donos de bar, emissoras de TV, fabricantes de cerveja, de fogos de artifício e pelo menos mais 50% da população gostam.

Se você vive no Brasil sabe que o futebol faz parte da nossa rotina,das tradições e inclusive da nossa economia. E como todo negócio,elegemos nossos ídolos.

Crianças de dez anos sabem quem é o Pelé, que por acaso atingiu o auge de sua carreira a mais de trinta anos. E claro que tivemos muitos outros queridinhos, como o Robinho, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká (as leitoras sabem do que eu to falando) e agora, a sensação é o jovem e talentoso Neymar. Sorte do Santos e ao mesmo tempo medo e sonho de consumo de qualquer time adversário.

É natural que as pessoas queiram se espelhar nas figuras públicas que admiram. E se permitem cortes de cabelo desde o (graças a Deus) superado penteado de careca com uma filete de franja do Ronaldo Fenômeno, até o mais recente moicano ditado pelo Neymar.

Até super compreensível. Cortes de cabelo falam algo sobre a personalidade da pessoa. Seja ele moderno, diferente,comum ou erro de palpite ou do cabeleireiro (atual definição da minha franja por exemplo). Pelo cabelo dá pra saber até quem passou no vestibular.

Mas aí outro dia me vi perguntando de onde surgiu a ideia do moicano, não tive que ir muito longe pra lembrar que tinha algo haver com uma tribo indígena dos Estados Unidos. É, Moicanos eram uma etnia de nativos que foi completamente dizimada pelos colonizadores europeus quando chegaram na América do Norte.

Aí sem querer me lembrei de outra coisa, uma que tem muito mais haver com minha realidade e por mais que eu corra da ideia, é minha responsabilidade também. Não se engane, é tão minha quanto sua. Estou falando da questão indígena do meu,ou melhor nosso país.

Se você já ouviu falar de Belo Monte sabe onde eu quero chegar, se não, permita-me dizer: é um projeto de central hidrelétrica em processo de autorização para ser construída no Pará, no Rio Xingu.

Pode parecer normal, afinal a energia de que você dispõe ao ligar o computador, assistir TV e acender as luzes, vem da energia disponibilizada por usinas hidrelétricas. Vulga ‘’energia limpa’’. Mas esse projeto não apenas desmatará milhares de quilômetros quadrados de floresta amazônica, emitirá quantidades críticas de gases estufa como também coloca em risco cerca de vinte etnias indígenas que vivem no Xingu.

É claro que enquanto você lê essa crônica muitos movimentos contra essa aprovação e outros a favor de outros direitos de nossos índios estão acontecendo.Mas pelo menos a mim,parece vergonhosa essa atitude de deixar tudo sempre pros outros e não fazer nada.

Ninguém faz um corte de cabelo indígena como protesto e nem sai por aí com a cara pintada, talvez a moda não julgue a causa como importante, talvez ainda pareça mais atraente parecer um jogador de futebol. Talvez ninguém no fundo se julgue no dever de fazer alguma coisa. Nós somos contra a globalização da Amazônia, claro, e indiferentes a um projeto devastador desses. Será que realmente temos algum direito sobre o que quer que seja? O mundo pode ter mudado um pouco, mas uma coisa não muda, direito só se tem se se conquista.

Sissa Santos

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Palavras e Acepções V


De tudo o que já foi exposto sobre significantes e significados abstrai-se que as palavras podem conceder e retirar ideias e pessoas dos seus lugares-comuns. Há, entretanto, a acrescentar que existe uma refinada diferença entre semântica e gramática. Esta se ocupa das estruturas ou padrões formais de como as palavras são expressas. Aquela, todavia, se ocupa das significações, podendo, por isso, ter diferentes semânticas no contexto daquilo que se quer comunicar. Em língua nacional vernácular, o significado leva em conta a sinonímia, a antonímia, e a homonímia, tanto quanto, a conotação e a denotação, as quais foram superficialmente comentadas em outro artigo. A Semiótica, ou como se falava antes, Semiologia, é a ciência da linguagem conforme as suas raízes. É a ciência geral dos signos ou semiose que estuda todos os fenômenos culturais como determinantes de sistemas de significação. A 'semeion', a saber, a Semiótica é mais abrangente que a Linguística, pois vai além do sistema sígnico. Neste conjunto entram as artes visuais, a fotografia, a música, o cinema, o vestuário, a culinária, os gestos, a religião, a ciência. Tudo o que é perceptível como significado aos sentidos humanos é o campo da Semiologia. Por todas estas razões, a Semiótica trabalha com formas e conteúdos nos sistemas ocidentais. Outros sistemas de comunicação sígnicos são mais complexos, podendo assumir uma dimensão triádica, ou seja, trabalha em três planos: a) a representação na natureza e na cultura; b) o conceito; c) e a ideia.
É neste sentido que se pode afirmar que há similitudes entre processos de comunicação humanos e não-humanos, com base nas significações do que os sentidos percebem em certos seres, ou fenômenos da natureza. Para Charles Sanders Peirce há três categorias que se impõem sobre a experiência humana: a mediação, a qualidade, e a reação. Para ele, tudo o que pode ser apreendido pelo pensamento se insere nestas categorias. Também é de Peirce as três concepções de sígnos: a) ícone; b) índice; c) e símbolo.
Após uma exposição superficial e sem muito rigor cinetífico, pode-se transpor da fundamentação teórica para fatos similares. Existe no sul-sudoeste da África um pequenino mamífero da família dos Herpestidae chamado 'Suricata suricatta'. São animais exclusivamente diurnos, moram em tocas escavadas no chão, possuem garras fortes, e dentes muito afiados. Uma das suas maiores características distintivas é que têm a capacidade de se colocar posturalmente sobre as duas patas traseiras, elevando-se a uma altura além da sua altura normal. Vivem em colônias de, no máximo, 40 indivíduos e possuem um complexo sistema de túneis subterrâneos onde permanecem durante a noite.
As Suricatas, ou Suricates possuem uma rara inteligência organizacional, porém apenas corporativa; desenvolveram um refinado sistema de comunicação entre si. Elas se revezam na vigilância contra os ataques de inumeráveis predadores. Protegem vertiginosamente as crias pequenas, substituindo-se umas às outras até a exaustão do sono. Parece ter um sistema de códigos sonoros que permitem identificar e transmitir sinais de perigo para cada tipo de predador. Ao emitirem tais sons, que, quando ouvidos pelo bando, provocam reações diferenciadas, com maior, ou menor urgência de defesa e proteção. As Suricatas possuem, inclusive, um eficiente sistema de ensino às suas crias, tanto para caçar sua alimentação, como para se defender dos predadores.
Há partidos políticos no Brasil que são verdadeiros antros de suricatas. Eles agem nos subterrâneos escuros, fuçando a vida de todos. Possuem um eficiente sistema de blindagem dos seus companheiros de bandos. Desenvolveram um conjunto de signos e símbolos pelos quais se comunicam e realizam ilusionismo aos desatentos, tornando-os vítimas de uma espécie de contra-informação. Os seus chavões e clichês são sempre os mesmos, lançando mão das palavras mágicas com as quais hipnotizam a fantasiosa intelectualidade subproduto das cátedras acadêmicas teóricas baseadas em Karl Marx, Vladimir Lênin, Leon Trotsky, Mao Tse Tung, Antonio Gramsci, Max Weber, Theodore Adorno, Rosa de Luxemburgo, Herbert Marcuse, Louis Althusser, Emir Sader, Slavoj Zizek, Jürgen Habermas, Max Horkheimer, entre outros tantos. Estes políticos suricatas, produzem e reproduzem modelos inspirados em um aprendizado adquirido por mimetismo dos mais velhos esquerdofrênicos que não lograram sucesso. Tais suricatas agem de uma maneira durante o dia, e de outra durante a escuridão da noite. Sustentam complexos ralos que dão em labirintos de esgotos por onde transitam e escapam segundo as suas necessidades e ambições.
Enfim, no Brasil há suricatas do planalto, ou no planalto!
Nunca na história deste país se viu tanta verossimilhança entre Suricatas da planície e do planalto...

sábado, 16 de outubro de 2010

Palavras e Acepções IV

Após o processo de letramento pressupõe-se que cada indivíduo busque a ampliação dos horizontes, seja pela observação seletiva e controlada da realidade, seja pela assimilação dos padrões culturais e informacionais disponibilizados com relativa liberdade no tempo presente. A informação, e a desinformação estão ambas colocadas diante do sujeito-cidadão, letrado, ou iletrado. Os códigos que permitem o seu acesso são de diferentes eixos linguísticos, conduzindo, portanto, a percepção e a recepção por decodificação das mensagens. Desta forma, ninguém, por mais alienado que seja, pode reclamar para si o direito de não saber, não ver e não conhecer os fatos. Tem-se hoje que a informação e a sua consequente comunicação é o quarto poder, ou quarta coluna. A experiência vivencial, indica que pessoas de poucas letras, e até mesmo, indoutas são capazes das mais profundas reflexões sobre a vida, os fenômenos, sobre si mesmas e os outros. A forma e o conteúdo daquilo que o sujeito-comunicante expõe tem muito da sua 'mores', a saber, da sua conduta e dos códigos desta conduta apreendidos e desenvolvidos ao longo da existência, em certo tempo e lugar.
É importante ressaltar que moral provém de 'mores' do latim, e que, por sua vez, resulta de uma inglória tentativa dos romanos em traduzir a palavra grega 'êthica'. Para os gregos ética trazia em sua significação dois sentidos: a) 'ethos' que se refere àquilo que flui do interior do homem, sugerindo, portanto uma ação e uma interação; b) 'éthica' que remete a questão para os hábitos, costumes, usos e regras que se materializam nos valores consagrados por um grupo social. A deturpação do termo 'éthica' fez desaparecer no tempo a dimensão do ato humano individual. Desta forma a ética contém a moral, sendo esta maior que aquela. Por isso, a ética é determinante da lei, visto que os atos individuais são refletidos nos costumes, hábitos e práticas de um grupo social. Quando a ética atinge a dimensão da lei, passa a reger todos os indivíduos, mas também cada um de per si.
Sendo a moral um conjunto de regras aceitas e praticadas no convívio social, desprende disto que os laços entre moral e direito são muito estreitos por força do fato de que ambos recaem nas leis cuja função é apaziguar a sociedade. Segundo Claude du Pasquier, em sua "Teoria dos Círculos Secantes", moral e direito coexistem sem se separarem, porque a necessidade de regras jurídicas estabelecem comportamentos morais; Já Jeremy Benthan, em sua "Teoria dos Círculos Concêntricos", o ordenamento jurídico encontra-se absolutamente contido na ordem moral; Também, segundo Georg Jellinek, em sua "Teoria do Mínimo Ético" afirma que o direito possui apenas um certo mínimo da moral, para garantir a sobrevivência da sociedade.
Enquanto o direito possui uma dimensão heterônoma, bilateral e coerciva, a moral é autônoma, unilateral e incoerciva. Por isto, considerando apenas a moral, pode-se dela obter três formas de comportamentos entre os humanos: a) Atitude moral, aquela que resulta em um indivíduo que aceita e pratica as regras postas como valores em uma sociedade, em certo momento histórico, e em um determinado espaço; b) Atitude imoral, aquela que resulta de um indivíduo que anda em sentido oposto a todas as regras aceitas e praticadas por um grupo, em um lugar, em em certo tempo; c) Atitude amoral, aquela que resulta em um indivíduo que não possui nenhuma reação de valor moral, ou imoral. A questão moral para esta categoria de indivíduo é desconhecida, e estranha, portanto, não leva em consideração os preceitos morais. Por isto, Oscar Wilde disse: "a arte não é moral nem imoral, mas amoral!" Na verdade ele quis dizer que a arte, em si mesma, não se preocupa em ser moral ou imoral, portanto, dependerá de quem a vê. Desta maneira fica estabelecido que a moralidade, ou a imoralidade está centrada no indivíduo que a vê, e não, necessariamente na peça em si.
Na sociedade moderna, sobretudo em determinados seguimentos, há seres absolutamente amorais, ou seja, não consideram os preceitos morais, e, muito menos, os atos imorais como tais. Eles são movidos ao sabor do que lhes agrada. Para eles, os fins justificam os meios, contanto que se locupletem. São capazes de, num simples ato de abuso de poder, infringir todo o ordenamento jurídico de uma nação, sem se importar com os sacrifícios dos que tombaram para que tais valores fossem consagrados. Eles se caracterizam por afirmar uma atitude aparentemente moral hoje, e negá-la amanhã com a maior ausência de escrúpulos. Muitos dos políticos brasileiros são assim. O que condenavam ontem, praticam hoje! Assim, o futuro é incerto...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Palavras e Acepções III

Entre vocábulos e termos, conotações e denotações a palavra se faz dita e dizente por ofício da comunicação. O discurso pleno de conteúdo, ou mesmo vazio deste, dá a diferença entre esta, e aquela palavra e suas possíveis acepções. Ressente-se, no entanto, de palavras que sejam, de fato, as mensageiras do pensamento, e que estes sejam fieis, tanto ao que faz uso delas, como também, aos que as ouvem. O processo comunicativo entre humanos é muito simples: consiste em um emissor, um código, e um receptor. Aquele é o que fala, este se refere a linguagem utilizada, e este outro é o que ouve. Cada um cumpre a sua função, e, entre fonemas e grafemas, termos e vocábulos, se dá o milagre da ideia comunicada.
Há um fenômeno recorrente na figura do político brasileiro, especialmente, o das novas gerações. Ele é por excelência, um ser mimético, a saber, um ser que possui imenso talento para imitar. Sendo o mimetismo, por extensão de sentido, um atributo do ser que se ajusta a uma nova situação, portanto, se passa por diferentes adaptações a fim de permanecer. O mímico político, ser anacrônico, transita de situação em situação, de plataforma em plataforma, de interesse em interesse, em conformidade com o ganho que possa disso obter. Neste sentido, o político brasileiro é por excelência, e por natureza um ser mimético. Muda de lado e de ideologia sem o menor senso de escrúpulo. Em tese, as meretrizes são mais seletivas que eles, posto que as tais não necessitam enganar a ninguém. São assumidas, porque não têm nada a perder, e muito pouco a ganhar.
Há três tipos básicos de mimetismo na natureza de acordo com a função do ser mímico: a) mimetismo defensivo, o qual, pretende dissuadir os predadores, podendo um mímico inofensivo se mimetizar de uma espécie perigosa; b) o mimetismo agressivo, tendo por objetivo a presa do mímico, ou seja, tomam forma de um ser inofensivo para apanhar de surpresa uma espécie da qual se alimenta; c) o mimetismo reprodutivo, a saber, aqueles que tomam as feições de uma outra espécie da qual possa obter alguma vantagem copular. Estes processos estão inserido nos termos da camada ótica. Há, todavia, outros mimetismos ligados à camada auricular, quando um ser mímico emite sons semelhantes ao de outro ser perigoso a fim de espantar possíveis predadores. É o caso do cuco, que imita o falcão visando afugentar aves que predam os seus ovos.
Assim, pode-se entender por mímico o ser que adota características semelhantes ao de outros seres. O mimentismo não deve ser confundido com a camuflagem, porque, enquanto o aquele busca assemelhar-se a outros seres, nesta, os seres buscam assemelhar-se ao meio em que se acham por algum tempo, dificultando a sua detecção por outros seres predadores.
No cenário político nacional se vê constantemente muitos seres mímicos, alguns seres predadores, e outros, ainda, seres camuflados. Os mímicos são aqueles que, na iminência de perder a confiança das suas presas úteis, mudam de postura corporal, penteado, indumentária, religião, cardápio, opinião et coetera. Eles passam décadas jurando destruir determinadas coisas, tais como: o capitalismo, os Estados Unidos da América, o FMI, a propriedade privada. Insuflam os faltos de instrução e consciência política, atribuindo às suas mazelas sempre aos outros. Entretanto, quando chegam ao poder e experimentam os seus prazeres, vislumbrando o quanto podem amealhar riquezas com o exercício da governança, mudam. Mimetizam-se rapidamente, porém mantendo o discurso que os levou ao poder. Discursam contra supostas elites que, na verdade, os apoiam. Na mente mímica deles, é sempre interessante manter o conflito de classes, porque isto justifica, tanto a sua perpetuação no poder, como a permanente promessa de uma sociedade mais justa. Eles passam de mímicos agressivos a mímicos defensivos, e, por vezes, a mímicos reprodutivos, podendo em muitos aspectos e circunstâncias, se camuflarem para sobreviver aos longos períodos de latência política.
Vê-se nestes tempos de militância, grandes mímicos pululando de galho em galho, visando encontrar uma maneira de permanecer no poder. Em dado momento concordam e propõem um PLC, o qual pretende oficializar o aborto, as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo, etc. Quando os índices de aprovação da opinião pública, traduzidos em intenções de votos se mostram decadentes, eles se mimetizam de santos, religiosos, a favor da vida, etc. Negam as antigas amizades coloridas e estúpidas que ainda sonham levar a América Latina a uma espécie de socialismo terceiromundista, o qual o mundo já testou e detestou.
"Nunca na história deste país" se viu tantos mímicos, mimetizados, e camuflados...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Palavras e Acepções II

Deve-se sempre ter muitos cuidados com as palavras, e mais ainda com as suas possíveis acepções, porque elas podem dizer muitas e diversificadas coisas. E, como alguém disse certa vez, "devemos pensar sobre todas as coisas, mas nunca dizer tudo o que pensamos." Sabe-se que palavras são significantes que podem ter um, ou diversos significados, sendo estes mutáveis em função do contexto em que são empregados. Os significados podem ser conotativos ou denotativos. Há significados que só se definem com o apoio de outras palavras complementares. O sentido conotativo é aquele que dá à palavra um valor figurado. Já o sentido denontativo é aquele que concede à palavra um valor literal. Então, dependendo do que se queira, pode-se fazer referência literal ao que é figurado, e referência figurada ao que é literal.
Em princípio todo discurso é vazio, precisamente porque o ato de se comunicar é por concessão, a saber, o sujeito-falante se concede expressar, enquanto, o outro, o sujeito-ouvinte, se concede entendê-lo. Em sentido mais amplo, os falantes e os ouvintes vivem uma sugestão de comunicação, quando, na verdade, se comunicam muito pouco. Neste ponto pode-se dizer que há muita palavração, e reduzida comunicação útil. Apalavrados todos os humanos são, porém, comunicadores pouquíssimos conseguem sê-lo. A "raça" humana é, em certo sentido, nivelada pelas palavras, visto que, tanto o doutos, como o indoutos, falam em igualdade de direito concessório. Pode haver, em termos gerais, uma ditadura da palavra, mas também há uma democracia dos falares e subfalres. Resta, então, saber quem fala, o que fala, quando fala, por que fala, onde fala, a quem fala. Porque, quem é o dono da língua, o que há por trás da norma coloquial, ou por trás da norma culta? Quem nestes casos discute formas, conteúdos, ou ideias?
Vê-se, hodiernamente, em pleno quadrante da história informacional, o palco onde atores ensaiam e apresentam seus discursos, plenos, ou vazios, conforme suas conveniências. É recorrente no teatro da política o discurso vazio. É deste contexto que surgem as palavras mágicas referidas no artigo anterior. É o discurso do "politicamente correto": inclusividade, sustentabilidade, políticas afirmativas, renda, empregabilidade, segurança disso, segurança daquilo, ética, democracia, cidadania, dignidade, etc. Quando pronunciadas, todos se põem em prontidão, porque disto dependerá um furo de reportagem, a aceitação em um determinado círculo fechado, um cargo de confiança, uma negociata às escusas, e por aí vai. Há um forte apelo à aceitação no ser humano, e, para tanto, muitos se passam por "politicamente corretos", quando, de fato, não o são. O discurso vazio pode versar sobre qualquer assunto, e pode ser proferido por qualquer pessoa. O aborrecido não é o discurso ser vazio, mas o discursante. Todas as discussões do "politicamente correto", nada mais são que o que é do dever do Estado e do cidadão. O problema reside em quem fala e nas razões da sua fala.
A sensibilidade à esperteza humana se desenvolve muito cedo, permitindo a percepção do como ser aceito, e do como se dar bem sem muito esforço braçal. Muitos enchergam o caminho dourado por onde enveredam, adotando postura e discurso, que, em sua significação, é vazio, posto que estão mesmo interessadas em chegar ao sucesso e à fama. Seria de bom tom que os palavrantes lessem Jacques Lacan em "As Formações do Inconsciente", para descobrir como os significantes formam e amoldam o inconsciente. Correr-se-ia menor risco de ser ludibriado por picaretas que são tidos como grandes virtuoses e gênios da política.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Palavras e Acepções I

Alguém afirmou alhures que "as palavras são as mensageiras do pensamento", como confirmava o sábio e prudente Rev. Eber Vasconcelos. Entretanto, a percepção que se tem, de fato, é que as palavras nos dias que transcorrem se prestam mais ao propósito de omitir, ou mesmo encobrir o real pensamento daquele que fala. O uso das palavras está condicionado a acepção que se pretende dar a elas, nos respectivos textos, nos devidos contextos, e, por vezes, a grotescos pretextos.
Na língua pátria vernacular a palavra 'palavra' provém do latim 'parabola', que, por sua vez, provém do grego 'parabolé', sendo, portanto, definida como o conjunto de letras ou sons associados a uma ideia. A palavra se constitui em uma unidade da linguagem humana. Quando se refere à palavra com um conjunto de letras, diz-se que é um grafema; quando se refere à palavra como um conjunto de sons, diz-se que é um fonema. Em ambos os aspectos, o referencial é a representação material da palavra, e, a ela, dá-se o nome de vocábulo. Quando se refere à palavra como índice da ideia a que ela representa, diz-se que é o aspecto interno, ou a representação imaterial da palavra, neste caso, ela é o termo. Portanto deve-se explicar sempre muito bem o termo, e não explicar bem o vocábulo. Igualmente, o correto é pronunciar bem o vocábulo, e não pronunciar bem o termo.
Acepção é um substantivo feminino que representa o sentido em que uma palavra, ou uma expressão pode tomar. É, portanto, a interpretação, a hermenêutica, ou mesmo, a sua significação. Na fraseologia comum a acepção indica uma tendência, ou uma ideologia do que fala em relação ao que ouve, a partir do que, ou de quem se fala. Assim, quando se diz da acepção de pessoas, fala-se, na verdade, de uma determinada predileção por alguém, escolha, tendência, e inclinação em favor de alguém, ou alguma coisa. Isto pode estar condicionado à classe social, a privilégios, e aos títulos desta pessoa. Ainda pode estar condicionado ao grau de importância do objeto de que se fala por seus atributos, benefícios e vantagens. A acepção induz a um sentido literal, ou figurado, dependendo do contexto.
Destarte, e, com longa margem de segurança pode-se afirmar que 'nunca na história deste país' se utilizou tanto, por tantas vezes, e em tantos pleitos da palavra para enganar, mentir, ludibriar, aviltar, insultar e engambelar tantas pessoas ao mesmo tempo, por todo o tempo. Descobriu-se o uso abusivo dos vocábulos, disfarçados grosseramente em termos nas acepções convenientes para se dizer o que quer, e ainda assim, se colocar na condição de vítima inocente o que fala, e na condição de inocente útil, o que ouve. Virou hábito dizer grosserias como se metáfora fosse, e dizer amabilidades como se acepção literal fosse.
Há aquelas palavras mágicas que encantam os ouvintes, como quem encanta serpentes. Basta a pronúncia de meia dúzia destas mágicas palavras, contextualizadas, ou não, que a mais célebre das platéias se cala. Todos, doutos, ou indoutos, silenciam-se por temer a exposição a uma oposição ostensiva e sofrer retaliações em seus campos de lutas. Ninguém quer se expor, mesmo quando o enunciado é estúpido e infiel aos princípios. Trocou-se a fidelidade, pela praxis do politicamente correto, pela qual todos os protocolos são quebrados. Com isto, alimentam uma súcia de mimetizados e uma horda de mimados esquerdofrênicos que não suportam ouvir o que não querem, mas adoram dizer o que querem aos 'miquinhos amestrados' da falsa intelectualidade, da imprensa venável e dos 'limitados domesticados' pela política do 'panis et circensis'.
E viva o circo com suas focas amestradas!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Da Falsa Meritocracia à Oclocracia Desvairada


Michael Young tratou do conceito de Meritocracia em uma obra de ficção em 1958, intitulada "Rise of the Meritocracy". Na referida obra, enuncia-se a concepção de uma sociedade na qual o poder seria exercido por indivíduos com base no seus QI,s e nos seus esforços. Tal concepção, no entanto, era carregada de significação pejorativa, visto que o poder se originaria da posição pessoal com base em um merecimento indiscriminado, ou difuso. Os ideólogos desta concepção, contrariamente, defendiam a tese que a ascensão dos indivíduos deveria ser com base no mérito, que, para eles, se apoiava na habilidade, na inteligência e no esforço pessoal.
A Oclocracia, por sua vez, não é rigorosamente uma forma de governo, mas uma situação crítica vivida pelas instituições constitutivas do poder, em face à irracionalidade do povo, multidão, ou das massas populares. Provém do grego 'okhlos = multidão' + 'kratos = poder'. Indica e preconiza uma forma de jugo outorgado pelo poder originário na vontade popular dirigido ao poder constituído e à lei vigente em um certo momento, em um determinado lugar. Este modelo, ou mecanismo faz valer os intentos e desejos das massas acima de quaisquer determinações do direito positivado. Recai por vias de consequências, e, de fatos, em um tipo de abuso que se instaura e se instala em um governo tipificado como democrático, quando as massas se tornam controladoras da coisa pública. Segundo a concepção clássica de Aristóteles, a Oclocracia se assemelha à Tirania e à Oligarquia, que são formas degeneradas e distorcidas das formas puras de governo. Há na Oclocracia, um forte apelo ao poder salvacionista e messiânico de quem está no comando.
A Meritocracia, do latim 'mereo', ou seja, merecer, obter com mérito, e 'kratos', que é poder. Em sua concepção original e pura trata-se de um governo gerido por meio da ascensão aos postos do poder público por merecimento com base na educação formal e na competência. Desta forma a Meritocracia verdadeira está associada também às posições, ou colocações conseguidas por mérito pessoal. Há diversas argumentações em favor da Meritocracia, no sentido em que ela seria mais justa, uma vez que as distinções não seriam com base em origem étnica, cor da pele, sexo, ou mesmo na escala de valores socioeconômicos. Tais distinções seriam, portanto, um critério mais próximo da equanimidade, sem determinar o fim das classes sociais e das distinções naturais dos indivíduos.
Na Meritocracia autêntica, governos e instituições meritocráticas enfatizam habilidades, educação formal e competência, em lugar de diferenças existentes, tais como classe social, etnia, ou sexo. Em uma democracia representativa, onde o poder está, teoricamente, nas mãos dos representantes eleitos, os elementos meritocráticos incluem o uso de consultorias especializadas para ajudar na formulação de políticas, e a participação de especialistas civis, meritocráticos, para implementá-los. A questão problematizadora da Meritocracia é definir com clareza o que cada indivíduo concebe como mérito. O problema da Meritocracia se agrava quando esta é utilizada pelo poder constituído com certo grau de legitimidade para mascarar privilégios e indicar cargos chaves no poder com o fim expresso de tirar vantagens eleitoreiras e financeiras disto.
É perceptível que, por natureza, a sociedade sempre foi e continua sendo em grande margem meritocrática. Em quase todas as formas de ascensão na sociedade humana é, teoricamente, com base no mérito pessoal. É da natureza humana essa distinção, tornando-se numa espécie de "Darwinismo Social". Por esta razão se reproduzem estruturas sociais altamente competitivas, onde riqueza e diferenças sociais aparecem claramente.
Estas questões todas acabaram por produzir um tipo de ascendência política das classes marginalizadas pelo processo histórico. Valendo-se do amplo processo de democratização das últimas décadas, as massas conseguiram eleger legitimamente determinados ícones produzidos e esculpidos pela intelectualidade marxista nas cátedras de grandes universidades. Setores à esquerda da igreja, e movimentos sociais. Estes supostos líderes populistas criaram uma falsa noção de meritocracia das massas no poder. São falsas no mérito, justamente porque, ao chegarem ao poder usam das massas populares como manobra para se perpetuarem e, dão a impressão de que são merecedores de lá estarem, porque são de origem das classes menos favorecidas. Isto nem sempre é verdade, e, ainda que seja, não reproduz a verdade democrática no seu sentido pleno. Ao contrário, se utilizam das estruturas do poder para impor regras e condições que ultrapassam de longe os direitos equânimes e bem-estar geral. Criam um conflito de classes velado e subreptício, tornando as classes sociais reféns do medo de instabilidades e violência social. Lançam os seus séquitos como verdadeiros "cães de guerra" para tocar o terror quando não conseguem aprovar suas teses, quando veem a possibilidade de serem cassados do poder pelas urnas, quando são apanhados em seus delitos e pecados. Criam um terrorismo de palavras, compram os vendíveis para obter uma maioria falseada no parlamento, e, quando colocados em exposição negativa apelam para suas origens de lutas e de méritos históricos, que, em muitos casos são apenas lendas mal-contadas.
É neste sentido que a falsa Meritocracia se transforma em uma espécie de Oclocracia desvairada e obtusa que engana, mente, ameaça, e se impõe pela força. Desvia-se o foco do mérito para a supervalorização emocional do direito de estar no poder, quebrando os protocolos, e o ordenamento jurídico. Os pseudos-intelectuais, a igreja, e os esquerdofrênicos pagarão muito caro por aplaudir estas estupidas atitudes.